O
ABECEDÁRIO DE GILLES DELEUZE
TRANSCRIÇÃO
INTEGRAL DO VÍDEO, PARA FINS EXCLUSIVAMENTE DIDÁTICOS
A de Animal
B de Beber
C de Cultura
D de Desejo
E de Enfance [Infância]
F de Fidelidade
G de Gauche [Esquerda]
H de História da Filosofia
I de Idéia
J de Joie [Alegria]
K de Kant
L de Literatura
M de Maladie [Doença]
N de Neurologia
O de Ópera
P de Professor
Q de Questão
R de Resistência
S de Style [Estilo]
T de Tênis
U de Uno
V de Viagem
W de Wittgenstein
X de Desconhecido
Y de Indizível
Z de Ziguezague
A cláusula
Claire Parnet [1994]: Gilles Deleuze sempre se negou a aparecer na
TV. Mas atualmente ele acha sua doença tão parecida com a
petite mort, da canção de A. Souchon, que mudou de
opinião. Mantive, porém, sua declaração
[“a cláusula”], feita em 1988, no início da
filmagem:
Gilles Deleuze [1988]: Você escolheu um abecedário,
me preveniu sobre os temas, não conheço bem as
questões, mas pude refletir um pouco sobre os temas... Responder
a uma questão, sem ter refletido, é para mim algo
inconcebível. O que nos salva é a cláusula. A
cláusula é que isso só será utilizado, se
for utilizável, só será utilizado após
minha morte.
Então, já me sinto reduzido ao estado de puro arquivo de
Pierre-André Boutang, de folha de papel, e isso me anima muito,
me consola muito, e quase no estado de puro espírito, eu falo,
falo ...após minha morte... e, como se sabe, um puro
espírito, basta ter feito a experiência da mesa girante
[do espiritismo], para saber que um puro espírito não
dá respostas muito profundas, nem muito inteligentes, é
um pouco vago, então está tudo certo, tudo certo para
mim, vamos começar: A, B, C, D... o que você quiser.
CP: Então começamos com A. A é Animal.
Poderíamos considerar sua a frase de W. C. Fields: “Um
homem que não gosta nem de crianças, nem de animais
não pode ser totalmente ruim”. Por enquanto, deixemos de
lado as crianças, sei que você não gosta muito de
animais domésticos, e nem prefere, como Baudelaire ou Cocteau,
os gatos aos cachorros. Em compensação, você tem um
bestiário, ao longo de sua obra, que é bastante
repugnante, ou seja, além das feras, que são animais
nobres, você fala muito do carrapato, do piolho, de alguns
pequenos animais como esses, repugnantes, e além disso, que os
animais lhe serviram muito desde
O anti-Édipo. Um
conceito importante em sua obra é o devir-animal. Qual é,
então, sua relação com os animais?
GD: Os animais não são... O que você disse
sobre minha relação com os animais domésticos,
não é o animal doméstico, domado, selvagem, o que
me preocupa. O problema é que os gatos, os cachorros, são
animais familiares, familiais, e é verdade que desses animais
domados, domésticos, eu não gosto. Em
compensação, gosto de animais domésticos
não-familiares, não-familiais. Gosto, pois sou
sensível a algo neles. Aconteceu comigo o que acontece em muitas
famílias. Não tinha gato, nem cachorro. Um de meus filhos
com Fanny trouxe, um dia, um gato que não era maior que sua
mãozinha. Ele o tinha encontrado, estávamos no campo, em
um palheiro, não sei bem onde, e a partir desse momento fatal,
sempre tive um gato em casa. O que me incomoda nesses bichos? Bem,
não foi um calvário, eu suporto, o que me incomoda...
não gosto dos roçadores, um gato passa seu tempo se
roçando, roçando em você, não gosto disso.
Um cachorro é diferente, o que reprovo, fundamentalmente, no
cachorro, é que ele late. O latido me parece ser o grito mais
estúpido. E há muitos gritos na Natureza! Há uma
variedade de gritos, mas o latido é, realmente, a vergonha do
reino animal. Suporto, em compensação, suporto mais, se
não durar muito, o grito, não sei como se diz, o uivo
para a lua, um cachorro que uiva para a lua, eu suporto mais.
CP: O uivo para a morte.
GD: Para a morte, não sei, suporto mais que o latido. E,
quando soube que cachorros e gatos fraudavam a previdência
social, minha antipatia aumentou. Ao mesmo tempo, o que digo é
bem bobo, porque as pessoas que gostam verdadeiramente de gatos e
cachorros têm uma relação com eles que não
é humana. Por exemplo, as crianças, têm uma
relação com eles que não é humana, que
é uma espécie de relação infantil ou... o
importante é ter uma relação animal com o animal.
O que é ter uma relação animal com o animal?
Não é falar com ele... Em todo caso, o que não
suporto é a relação humana com o animal. Sei o que
digo porque moro em uma rua um pouco deserta e as pessoas levam seus
cachorros para passear. O que ouço de minha janela é
espantoso. É espantoso como as pessoas falam com seus bichos.
Isso inclui a própria psicanálise. A psicanálise
está tão fixada nos animais familiares ou familiais, nos
animais da família, que qualquer tema animal... em um sonho, por
exemplo, é interpretado pela psicanálise como uma imagem
do pai, da mãe ou do filho, ou seja, o animal como membro da
família. Acho isso odioso, não suporto. Devemos pensar em
duas obras primas de Douanier Rousseau: o cachorro na carrocinha que
é realmente o avô, o avô em estado puro, e depois o
cavalo de guerra, que é um bicho de verdade. A questão
é: que relação você tem com o animal? Se
você tem uma relação animal com o animal... Mas
geralmente as pessoas que gostam dos animais não têm uma
relação humana com eles, mas uma relação
animal. Isso é muito bonito, mesmo os caçadores, e
não gosto de caçadores, enfim, mesmo eles têm uma
relação surpreendente com o animal. Acho que você
me perguntou, também, sobre outros animais. É verdade que
sou fascinado por bichos como as aranhas, os carrapatos, os piolhos.
É tão importante quanto os cachorros e gatos. E é
também uma relação com animais, alguém que
tem carrapatos, piolhos. O que quer dizer isto? São
relações bem ativas com os animais. O que me fascina no
animal? Meu ódio por certos animais é nutrido por meu
fascínio por muitos animais. Se tento me dizer, vagamente, o que
me toca em um animal, a primeira coisa é que todo animal tem um
mundo. É curioso, pois muita gente, muitos humanos não
têm mundo. Vivem a vida de todo mundo, ou seja, de qualquer um,
de qualquer coisa, os animais têm mundos. Um mundo animal,
às vezes, é extraordinariamente restrito e é isso
que emociona. Os animais reagem a muito pouca coisa. Há toda
espécie de coisas...
Essa história, esse primeiro traço do animal é a
existência de mundos animais específicos, particulares, e
talvez seja a pobreza desses mundos, a redução, o
caráter reduzido desses mundos que me impressiona muito. Por
exemplo, falamos, há pouco, de animais como o carrapato. O
carrapato responde ou reage a três coisas, três excitantes,
um só ponto, em uma natureza imensa, três excitantes, um
ponto, é só. Ele tende para a extremidade de um galho de
árvore, atraído pela luz, ele pode passar anos, no alto
desse galho, sem comer, sem nada, completamente amorfo, ele espera que
um ruminante, um herbívoro, um bicho passe sob o galho, e
então ele se deixa cair, aí é uma espécie
de excitante olfativo. O carrapato sente o cheiro do bicho que passa
sob o galho, este é o segundo excitante, luz, e depois odor, e
então, quando ele cai nas costas do pobre bicho, ele procura a
região com menos pêlos, um excitante tátil, e se
mete sob a pele. Ao resto, se se pode dizer, ele não dá a
mínima. Em uma natureza formigante, ele extrai, seleciona
três coisas.
CP: É este seu sonho de vida? É isso que lhe
interessa nos animais?
GD: É isso que faz um mundo.
CP: Daí sua relação animal-escrita. O
escritor, para você, é, também, alguém que
tem um mundo?
GD: Não sei, porque há outros aspectos, não
basta ter um mundo para ser um animal. O que me fascina completamente
são as questões de território e acho que
Félix e eu criamos um conceito que se pode dizer que é
filosófico, com a idéia de território. Os animais
de território, há animais sem território, mas os
animais de território são prodigiosos, porque constituir
um território, para mim, é quase o nascimento da arte.
Quando vemos como um animal marca seu território, todo mundo
sabe, todo mundo invoca sempre... as histórias de
glândulas anais, de urina, com as quais eles marcam as fronteiras
de seu território. O que intervém na
marcação é, também, uma série de
posturas, por exemplo, se abaixar, se levantar. Uma série de
cores, os macacos, por exemplo, as cores das nádegas dos
macacos, que eles manifestam na fronteira do território... Cor,
canto, postura, são as três determinações da
arte, quero dizer, a cor, as linhas, as posturas animais são,
às vezes, verdadeiras linhas. Cor, linha, canto. É a arte
em estado puro. E, então, eu me digo, quando eles saem de seu
território ou quando voltam para ele, seu comportamento... O
território é o domínio do ter. É curioso
que seja no ter, isto é, minhas propriedades, minhas
propriedades
à maneira de Beckett ou de Michaux. O território
são as propriedades do animal, e sair do território
é se aventurar. Há bichos que reconhecem seu
cônjuge, o reconhecem no território, mas não fora
dele.
CP: Quais?
GD: É uma maravilha. Não sei mais que pássaro,
tem de acreditar em mim. E então, com Félix, saio do
animal, coloco, de imediato, um problema filosófico, porque...
misturamos um pouco de tudo no abecedário. Digo para mim,
criticam os filósofos por criarem palavras bárbaras, mas
eu, ponha-se no meu lugar, por determinadas razões, faço
questão de refletir sobre essa noção de
território. E o território só vale em
relação a um movimento através do qual se sai
dele. É preciso reunir isso. Preciso de uma palavra,
aparentemente bárbara. Então, Félix e eu
construímos um conceito de que gosto muito, o de
desterritorialização. Sobre isso nos dizem: é uma
palavra dura, e o que quer dizer, qual a necessidade disso? Aqui, um
conceito filosófico só pode ser designado por uma palavra
que ainda não existe. Mesmo se se descobre, depois, um
equivalente em outras línguas. Por exemplo, depois percebi que
em Melville, sempre aparecia a palavra:
outlandish, e
outlandish,
pronuncio mal, você corrige,
outlandish é,
exatamente, o
desterritorializado.
Palavra por palavra. Penso que, para a filosofia, antes de voltar aos
animais,
para a filosofia é surpreendente. Precisamos, às
vezes,
inventar uma palavra
bárbara para dar conta de uma noção
com
pretensão nova. A noção com
pretensão
nova é que não há
território sem um vetor
de saída do território e não
há
saída
do território, ou seja,
desterritorialização, sem,
ao mesmo tempo, um esforço
para se reterritorializar em outra parte. Tudo isso acontece nos
animais. É
isso que me fascina, todo o domínio dos signos. Os animais
emitem signos, não
param de emitir signos, produzem signos no duplo sentido: reagem a
signos, por
exemplo, uma aranha: tudo o que toca sua tela, ela reage a qualquer
coisa, ela
reage a signos. E eles produzem signos, por exemplo, os famosos
signos... Isso
é um signo de lobo? É um lobo ou outra coisa?
Admiro
muito quem sabe
reconhecer, como os verdadeiros caçadores, não os
de
sociedades de caça, mas os
que sabem reconhecer o animal que passou por ali, aí eles
são animais, têm, com
o animal, uma relação animal. É isso
ter uma
relação animal com o animal. É
formidável.
CP: É essa emissão de signos, essa
recepção de signos que aproxima o animal da escrita e do
escritor?
GD: É. Se me perguntassem o que é um animal, eu
responderia: é o ser à espreita, um ser,
fundamentalmente, à espreita.
CP: Como o escritor?
GD: O escritor está à espreita, o filósofo
está à espreita. É evidente que estamos à
espreita. O animal é... observe as orelhas de um animal, ele
não faz nada sem estar à espreita, nunca está
tranqüilo.
Ele come, deve vigiar se não há alguém
atrás dele, se acontece algo atrás dele, a seu lado.
É terrível essa existência à espreita.
Você faz a aproximação entre o escritor e o animal.
CP: Você a fez antes de mim.
GD: É verdade, enfim... Seria preciso dizer que, no limite,
um escritor escreve
para os
leitores
, ou seja,
“para uso de”,
"dirigido a". Um escritor escreve "para uso
dos leitores". Mas o escritor também escreve
pelos não-leitores, ou seja,
“no lugar de” e não "para uso de".
Escreve-se pois "para uso de" e "no
lugar de". Artaud escreveu páginas que todo mundo conhece.
“Escrevo pelos analfabetos, pelos idiotas
”.
Faulkner escreve pelos idiotas
.
Ou seja, não para os idiotas, os analfabetos, para que os
idiotas, os analfabetos o leiam, mas no lugar dos analfabetos, dos
idiotas. “Escrevo no lugar dos
selvagens, escrevo no lugar dos bichos”. O que isso quer dizer?
Por que se diz uma coisa dessas? “Escrevo no lugar dos
analfabetos, dos idiotas, dos bichos”. É isso que se faz,
literalmente, quando se escreve. Quando se escreve, não se trata
de história privada. São realmente uns imbecis. É
a abominação, a mediocridade literária de todos as
épocas, mas, em particular, atualmente, que faz com que se
acredite que para fazer um romance, basta uma historinha privada, sua
historinha privada, sua avó que morreu de câncer, sua
história de amor, e então se faz um romance. É uma
vergonha dizer coisas desse tipo. Escrever não é assunto
privado de alguém. É se lançar, realmente, em uma
história universal e seja o romance ou a filosofia, e o que isso
quer dizer...
CP: É escrever "para" e "pelo", ou seja, "para uso de"
e "no lugar de". É o que disse em
Mil
platôs, sobre Chandos e Hofmannsthal: “O escritor
é um bruxo, pois vive o animal como a única
população frente à qual é
responsável”.
GD: É isso. É por uma razão simples, acredito
que seja bem simples. Não é uma declaração
literária a que você leu de Hofmannsthal. É outra
coisa. Escrever é, necessariamente, forçar a linguagem, a
sintaxe, porque a linguagem é a sintaxe, forçar a sintaxe
até um certo limite, limite que se pode exprimir de
várias maneiras. É tanto o limite que separa a linguagem
do silêncio, quanto o limite que separa a linguagem da
música, que separa a linguagem de algo que seria... o piar, o
piar doloroso.
CP: Mas de jeito algum o latido?
GD: Não, o latido não. E, quem sabe, poderia haver um
escritor que conseguisse. O piar doloroso, todos dizem, bem, sim,
Kafka. Kafka é
A metamorfose, o gerente que grita:
“Ouviram, parece um animal”. Piar doloroso de Gregor ou o
povo dos camundongos, Kafka escreveu
pelo
povo dos camundongos, pelo povo dos ratos que morrem. Não
são os homens que sabem morrer, são os bichos, e os
homens, quando morrem, morrem como bichos. Aí voltamos ao gato
e, com muito respeito, tive, entre os vários gatos que se
sucederam aqui, um gatinho que morreu logo, ou seja, vi o que muita
gente também viu, como um bicho procura um canto para morrer.
Há um território para a morte também, há
uma procura do território da morte, onde se pode morrer. E esse
gatinho que tentava se enfiar em um canto, como se para ele fosse o
lugar certo para morrer. Nesse sentido, se o escritor é
alguém que força a linguagem até um limite, limite
que separa a linguagem da animalidade, do grito, do canto, deve-se
então dizer que o escritor é responsável pelos
animais que morrem, e ser responsável pelos animais que morrem,
responder por eles... escrever não para eles
, não
vou escrever para meu gato, meu cachorro. Mas escrever no lugar dos
animais que morrem é levar a linguagem a esse limite.
Não há literatura que não leve a linguagem a esse
limite que separa o homem do animal. Deve-se estar nesse limite. Mesmo
quando se faz filosofia. Fica-se no limite que separa o pensamento do
não-pensamento. Deve-se estar sempre no limite que o separa da
animalidade, mas de modo que não se fique separado dela.
Há uma inumanidade própria ao corpo humano, e ao
espírito humano, há relações animais com o
animal. Seria bom se terminássemos com o A.
CP: Vamos passar para o B.
CP: B é um pouco particular, é sobre a bebida.
Você bebeu e parou de beber. Eu gostaria de saber quando
você bebia, o que era beber? Tinha prazer, ou o quê?
GD: Bebi muito, bebi muito. Parei, bebi muito... Seria preciso
perguntar a outras
pessoas que beberam, perguntar aos alcoólatras. Acho que beber
é uma questão de quantidade, por isso não
há equivalente com a comida. Há gulosos, há
pessoas... comer sempre me desagradou, não é para mim,
mas a bebida é uma questão... Entendo que não se
bebe qualquer coisa. Quem bebe tem sua bebida favorita, mas é
nesse âmbito que ele entende a quantidade. O que quer dizer
questão de quantidade? Zomba-se muito dos drogados, ou dos
alcoólatras, porque eles sempre dizem: “Eu controlo, paro
de beber quando quiser”. Zombam deles, porque não se
entende o que querem dizer. Tenho lembranças bem claras. Eu via
bem isso e acho que quem bebe compreende isso. Quando se bebe, se quer
chegar ao último copo. Beber é, literalmente, fazer tudo
para chegar ao último copo. É isso que interessa.
CP: É sempre o limite?
GD: Será que é o limite? É complicado. Em
outros termos, um alcoólatra é alguém que
está sempre parando de beber, ou seja, está sempre no
último copo. O que isto quer dizer? É um pouco como a
fórmula de Péguy, que é tão bela:
não é a última ninféia que repete a
primeira, é a primeira ninféia que repete todas as outras
e a última. Pois bem, o primeiro copo repete o último,
é o último que conta. O que quer dizer o último
copo para um alcoólatra? Ele se levanta de manhã, se for
um alcoólatra da manhã, há todos os gêneros,
se for um alcoólatra da manhã, ele tende para o momento
em que chegará ao último copo. Não é o
primeiro , o segundo, o terceiro que o interessa,
é muito mais,
um alcoólatra é malandro, esperto. O último copo
quer dizer o seguinte: ele avalia, há uma
avaliação, ele avalia o que pode agüentar, sem
desabar... Ele avalia. Varia para cada pessoa. Avalia, portanto, o
último copo e todos os outros serão a sua maneira de
passar, e de atingir esse último. E o que quer dizer o
último? Quer dizer: ele não suporta beber mais naquele
dia. É o último que lhe permitirá recomeçar
no dia seguinte, porque, se ele for até o último que
excede seu poder, é o último em seu poder, se ele vai
além do último em seu poder para chegar ao último
que excede seu poder, ele desmorona, e está acabado, vai para o
hospital, ou tem de mudar de hábito, de agenciamento. De modo
que, quando ele diz: o último copo, não é o
último, é o penúltimo, ele procura o
penúltimo. Ele não procura o último copo, procura
o penúltimo copo. Não o último, pois o
último o poria fora de seu arranjo, e o penúltimo
é o último antes do recomeço no dia seguinte. O
alcoólatra é aquele que diz e não pára de
dizer: vamos... é o que se ouve nos bares, é tão
divertida a companhia de alcoólatras, a gente não se
cansa de escutá-los, nos bares quem diz: é o
último, e o último varia para cada um. E o último
é o penúltimo.
CP: É também quem diz: amanhã paro.
GD: Amanhã eu paro? Não, ele não diz:
amanhã eu paro; diz: paro hoje para recomeçar
amanhã.
CP: Então, já que beber é sempre parar de
beber, como se pára de beber totalmente, já que
você parou?
GD: É muito perigoso, me parece que acontece
rápido.
Michaux disse tudo, os problemas de droga e os problemas de
álcool não estão tão separados. Há
um momento em que isso se torna perigoso demais, porque, aí
também é uma crista, como quando eu dizia "a crista
entre a linguagem e o silêncio", ou a linguagem e a animalidade,
é uma crista, é um estreito desfiladeiro. Tudo bem
beber, se drogar, pode-se fazer tudo o que se quer, desde que isso
não o impeça de trabalhar, se for um excitante é
normal oferecer algo de seu corpo em sacrifício. Beber, se
drogar são atitudes bem sacrificais. Oferece-se o corpo em
sacrifício. Por quê? Porque há algo forte demais,
que não se poderia suportar sem o álcool. A
questão não é suportar o álcool, é,
talvez, o que se acredita ver, sentir, pensar, e isso faz com que, para
poder
suportar, para poder controlar o que se acredita ver, sentir, pensar,
se precise de uma
ajuda: álcool, droga, etc. A fronteira é muito simples.
Beber, se drogar, tudo isso parece tornar quase possível algo
forte demais, mesmo se se deve pagar depois, sabe-se, mas em todo caso,
está ligado a isto, trabalhar, trabalhar. E é evidente
que quando tudo se inverte, e que beber impede de trabalhar, e a droga
se torna uma maneira de não trabalhar, é o perigo
absoluto, não tem mais interesse, e, ao mesmo tempo, percebe-se,
cada vez mais, que quando se pensava que o álcool ou a droga
eram necessários, eles não são necessários.
Talvez se deva passar por isso, para perceber que tudo o que se pensou
fazer graças a eles podia-se fazer sem eles. Admiro muito a
maneira como Michaux diz: agora, tornou-se, tudo isso é... ele
pára. Eu tenho menos mérito, porque parei de beber por
razões de respiração, de saúde, etc., mas
é evidente que se deve parar ou se privar disso. A única
justificação possível é se isso ajuda o
trabalho. Mesmo se se deve pagar fisicamente depois. Quanto mais se
avança, mais a gente diz a si mesmo que não ajuda o
trabalho...
CP: Por um lado, como Michaux, é preciso ter se drogado,
bebido muito para poder se privar em um estado desses. Por outro lado,
você diz: quando se bebe, isso não deve impedir o
trabalho, mas é porque se entreviu algo que a bebida ajudava a
suportar. E esse algo não é a vida. Aí há a
questão dos escritores de que se gosta.
GD: Sim, é a vida.
CP: É a vida?
GD: É algo forte demais na vida, não é algo
terrificante, é algo forte demais, poderoso demais na vida.
Acredita-se, de modo um pouco idiota, que beber vai colocá-lo no
nível desse algo mais poderoso. Se pensar em toda a linhagem dos
grandes americanos. De Fitzgerald a... um dos que mais admiro é
Thomas Wolfe. É uma série de alcoólatras, ao mesmo
tempo que é isso o que lhes permite, os ajuda, provavelmente, a
perceber algo grande demais para eles.
CP: É, mas é também porque eles perceberam
algo da potência da vida, que nem todos podem perceber, porque
sentiram algo da potência da vida.
GD: O álcool não o fará sentir...
CP: ... que havia uma potência da vida forte demais para
eles, e que só eles podiam perceber.
GD: Certo.
CP: E Lowry também?
GD: Certo. Claro, eles fizeram uma obra e o que foi o álcool
para eles? Eles se arriscaram, arriscaram porque pensaram, com ou sem
razão, que isso os ajudava. Eu tive a sensação de
que isso me ajudava a fazer conceitos, é estranho, a fazer
conceitos filosóficos. Ajudava, depois percebi que já
não ajudava, que me punha em perigo, não tinha vontade de
trabalhar se bebesse. Então se deve parar. É simples.
CP: É uma tradição americana, são
poucos os escritores franceses que confessaram sua queda pelo
álcool. Além disso, há algo que faz parte da
escrita...
GD: Os escritores franceses não têm a mesma
visão de escrita. Não sei se fui tão marcado pelos
americanos, é uma questão de visão, de
vidências, aqui considera-se que a filosofia, a escrita, é
uma questão... De maneira modesta, ver algo, que os outros
não vêem, não é esta a
concepção francesa da literatura, mas note, houve
também muitos alcoólatras na França.
CP: Mas eles param de escrever, na França. Têm muita
dificuldade, os que conhecemos. Poucos filósofos confessaram sua
queda pela bebida.
GD: Verlaine morava na rua Nollet, aqui ao lado.
CP: Exceto Rimbaud e Verlaine.
GD: Aperta o coração, pois quando pego a rua Nollet,
digo: era este o percurso de Verlaine para ir beber seu absinto. Parece
que morou em um apartamento horrível.
CP: Os poetas e o álcool, conhecemos mais.
GD: Um dos maiores poetas franceses, que andava pela rua Nollet.
Uma maravilha.
CP: Na casa dos amigos?
GD: Provavelmente.
CP: Enfim, os poetas, sabemos que houve mais etílicos. Bem,
terminamos com o álcool.
GD: Puxa, estamos indo rápido!
CP: Vamos passar ao C. O C é vasto.
CP: Se se pode abusar um certo tempo do álcool, da
cultura não se deve ir além da dose. É até
um pouco repugnante. Bem, terminamos com o álcool.
GD: Puxa, estamos indo rápido!
CP: Vamos passar ao C. O C é vasto.
GD: O que é?
CP: C de Cultura.
GD: Sim, por que não?
CP: Você diz não ser culto. Diz que só
lê, só vê filmes ou só olha as coisas para um
saber preciso: aquele de que necessita para um trabalho definido,
preciso,
que está fazendo, mas, ao mesmo tempo, você vai todos os
sábados a uma exposição, a um filme do grande
campo cultural, tem-se a impressão de que há uma
espécie de esforço para a cultura, que você
sistematiza e que tem uma prática cultural, ou seja, que
você sai, faz um esforço, tende a se cultivar e,
entretanto, diz que não é culto. Como explica tal
paradoxo? Você não é culto?
GD: Não, quando lhe digo que não me vejo, realmente,
como um intelectual, não me vejo como alguém culto por
uma razão simples: é que quando vejo alguém culto,
fico assustado, não fico tão admirado, admiro certas
coisas, outras, não, mas fico assustado. A gente nota
alguém culto. É um saber sobretudo assustador. Vemos isso
em muitos intelectuais, eles sabem tudo, bem, não sei, sabem
tudo, estão a par de tudo, sabem a história da
Itália, da Renascença, sabem geografia do Pólo
Norte, sabem... podemos fazer uma lista, eles sabem tudo, podem falar
de tudo. É abominável. Quando digo que não sou
culto, nem intelectual, quero dizer algo bem fácil, é que
não tenho saber de reserva. Pelo menos não tenho esse
problema. Com minha morte, não se precisará procurar o
que tenho para publicar, nada, pois não tenho reserva alguma.
Não tenho nada, provisão alguma, nenhum saber de
provisão, e tudo o que aprendo, aprendo para certa tarefa, e,
feita a tarefa, esqueço. De modo que, se dez anos depois, sou
forçado, isso me alegra, se sou forçado a me colocar em
algo vizinho ou no mesmo tema, tenho de recomeçar do zero.
Exceto em alguns casos raros, pois Spinoza está em meu
coração, não o esqueço, é meu
coração, não minha cabeça, senão...
Por que não admiro essa cultura assustadora? Pessoas que
falam...
CP: É erudição ou opinião sobre tudo?
GD: Não é erudição, eles sabem falar,
primeiro viajaram, viajaram na História, na Geografia, sabem
falar de tudo. Ouvi na TV, é assustador, ouvi nomes,
então, como tenho muita admiração, posso dizer,
gente como Umberto Eco, é prodigioso, o que quer que lhe digam,
pronto, é como se apertassem em um botão, e ele sabe,
além disso... Não posso dizer que invejo isso. Fico
assustado, mas não invejo. O que é a cultura? Ela
consiste em falar muito, não posso me impedir de... sobretudo
agora que não dou mais aula, estou aposentado, falar, acho cada
vez mais, falar é um pouco sujo. É um pouco sujo, a
escrita é limpa. Escrever é limpo e falar é sujo.
É sujo porque é fazer charme. Nunca suportei
colóquios, estive em alguns quando era jovem, mas nunca suportei
colóquios. Não viajo. Por que não? Porque... os
intelectuais... eu viajaria se... enfim, não. Aliás,
não viajaria, minha saúde me proíbe, mas as
viagens dos intelectuais são uma palhaçada. Eles
não viajam, se deslocam para falar, partem de um lugar onde
falam e vão para outro para falar. E, mesmo no almoço,
eles vão falar com os intelectuais do lugar. Não
vão parar de falar. Não suporto falar, falar, falar,
não suporto. Como me parece que a cultura está muito
ligada à fala. Nesse sentido, odeio a cultura, não
consigo suportá-la.
CP: Voltaremos a falar disso, a escrita limpa, a fala suja, pois
você foi um grande professor e a solução...
GD: É diferente.
CP: Voltaremos a isso. A letra P está ligada a seu trabalho
de professor. Falaremos da sedução. Queria voltar a algo
que você evitou, que é seu esforço, a disciplina
que você se impõe, mesmo não precisando dela, para
ver, por exemplo, nos últimos 15 dias, a exposição
de Polcke, no Museu de Arte Moderna. Você vai com
freqüência, ou semanalmente, ver um grande filme ou uma
exposição de pintura. Você não é
erudito, não é culto, não tem
admiração por pessoas cultas, como acaba de dizer. A que
corresponde tal esforço? É prazer?
GD: Claro, é prazer, enfim, nem sempre, mas penso nessa
história de estar à espreita. Não acredito na
cultura; acredito, de certo modo, em encontros. E não se
têm encontros com pessoas. As pessoas acham que é com
pessoas que se têm encontros. É terrível, isso faz
parte da cultura, intelectuais que se encontram, essa sujeira de
colóquios, essa infâmia, mas não se tem encontros
com pessoas, e sim com coisas, com obras: encontro um quadro, encontro
uma ária de música, uma música, assim entendo o
que quer dizer um encontro. Quando as pessoas querem juntar a isso um
encontro com elas próprias, com pessoas, não dá
certo. Isso não é um encontro. Daí os encontros
serem decepcionantes, é uma catástrofe os encontros com
pessoas.
Como você diz, quando vou, sábado e domingo, ao cinema,
etc., não estou certo de ter um encontro, mas parto à
espreita. Será que há matéria para encontro, um
quadro, um filme, então é formidável. Dou um
exemplo, porque, para mim, quando se faz algo, trata-se de sair e de
ficar. Ficar na filosofia é também como sair da
filosofia? Mas sair da filosofia não quer dizer fazer outra
coisa, por isso é preciso sair permanecendo dentro. Não
é fazer outra coisa, escrever um romance, primeiro eu seria
incapaz, e mesmo se fosse capaz, isso não me diria nada. Quero
sair da filosofia pela filosofia. É isso o que me interessa.
CP: O que isso quer dizer?
GD: Dou um exemplo, como isso é para depois de minha morte,
posso deixar de ser modesto. Acabo de escrever um livro sobre um grande
filósofo chamado Leibniz e insistindo em uma noção
que me parece importante nele, mas que é muito importante para
mim: a noção de dobra. Considero que fiz um livro de
filosofia sobre essa noção, um pouco estranha, de dobra.
O
que me acontece depois? Recebo cartas, como sempre, há cartas
insignificantes, mesmo se são encantadoras e calorosas, e me
toquem muito. São cartas que me dizem, muito bem... são
cartas de intelectuais que gostaram ou não do livro. E
então recebo duas cartas, dois tipos de cartas, em que esfrego
os olhos... Há cartas de pessoas que dizem: “Mas sua
história de dobra, somos nós”. E percebo que
são pessoas que fazem parte de uma associação que
agrupa 400 pessoas na França, hoje, e deve crescer. É a
associação de dobradores de papéis, eles têm
uma revista, me enviam a revista e dizem: “Concordamos
totalmente, o que você faz é o que fazemos”. Digo
para mim: isso eu ganhei. Recebo outra carta, e falam da mesma maneira
e dizem: “A dobra somos nós”. É uma
maravilha. Primeiro isso lembra Platão, porque em
Platão... os filósofos, para mim, não são
pessoas abstratas, são grandes escritores, grandes autores bem
concretos. Em Platão há uma história que me enche
de alegria, e está ligada ao início da filosofia,
voltaremos a isso depois. O tema de Platão é: ele
dá uma definição, por exemplo, o que é o
político? O político é o pastor dos homens, e
sobre isso há muita gente que diz: o político somos
nós, por exemplo, o pastor chega e diz: visto os homens, logo
sou o verdadeiro pastor dos homens. O açougueiro diz: alimento
os homens, sou o pastor dos homens. Os rivais chegam... Tive esta
experiência, os dobradores de papéis chegam e dizem: a
dobra somos nós. Os outros, que me enviaram o mesmo tipo de
carta, é incrível, foram os surfistas. À primeira
vista
não há relação alguma com os dobradores de
papéis. Os surfistas dizem: “concordamos totalmente, pois,
o que fazemos? Estamos sempre nos insinuando nas dobras da natureza.
Para nós, a natureza é um conjunto de dobras
móveis. Nós nos insinuamos na dobra da onda, habitar a
dobra da onda é a nossa tarefa”. Habitar a dobra da
onda e, com efeito, eles falam disso de modo admirável. Eles
pensam, não se contentam em surfar, eles pensam o que fazem.
Voltaremos a falar disto se chegarmos ao esporte [
sport], ao
S...
CP: Está longe. Partimos do encontro, são encontros,
os dobradores de papéis?
GD: São encontros. Quando digo sair da filosofia pela
filosofia... Sempre me aconteceu isso, são encontros, encontrei
os dobradores de papéis, não preciso vê-los,
aliás, ficaríamos decepcionados, provavelmente, eu
ficaria, e eles ainda mais. Não preciso vê-los, mas tive
um encontro com o surfe, com os dobradores de papéis,
literalmente, saí da filosofia pela filosofia, é isso um
encontro. Acho que os encontros... quando vou ver uma
exposição, estou à espreita, em busca de um quadro
que me toque, de um quadro que me comova, quando vou ao cinema,
não vou ao teatro, o teatro é longo demais, disciplinado
demais, é demais. E não me parece uma arte... a
não ser Bob Wilson e Carmelo Bene. Não acho que o teatro
seja voltado para nossa época, exceto nesses casos extremos. Mas
ficar quatro horas sentado em uma poltrona ruim, primeiro por motivos
de saúde, isso liquida o teatro para mim. Uma
exposição de pintura, ou o cinema... Sempre tenho a
impressão que posso ter o encontro com uma idéia.
CP: Mas o filme, por mera distração, não
existe?
GD: Isso não é cultura.
CP: Não é cultura, mas não há
distração?
GD: Minha distração é...
CP: Tudo está em seu trabalho.
GD: Não é um trabalho, é a espreita, estou
à espreita de algo que passa dizendo para mim... isso me
perturba. É muito divertido.
CP: Mas não é Eddie Murphy que vai te perturbar?
GD: Não é...?
CP: Eddie Murphy é um...
GD: Quem é?
CP: Um ator cômico americano, cujos últimos filmes
são verdadeiros sucessos. Nunca vai ver...?
GD: Não conheço. Só vi Benny Hill na TV. Benny
Hill me interessa, não escolho, necessariamente, coisas muito
boas, tenho razões para me interessar.
CP: Mas quando sai, é para um encontro?
GD: Quando saio, se não há idéia para tirar
daí, se não digo: havia uma idéia... O que
é um grande cineasta? Vale também para cineastas, o que
me toca na beleza, por exemplo, um grande como Minnelli ou como Losey,
o que me toca neles? Eles são perseguidos por idéias, uma
idéia...
CP: Está queimando a letra I.
GD: Idéia...
CP: Está queimando a letra I, pare logo.
GD: Paramos aí, mas é isso o que me parece ser um
encontro. Temos encontros com coisas, antes de os ter com pessoas.
CP: Nesse momento, para falar de um período preciso, que
é o do momento, você tem muitos encontros?
GD: Acabo de dizer: os dobradores, os surfistas, o que mais
quer?
Não são encontros com intelectuais. Ou então, se
encontro um intelectual é por outras razões, não
porque gosto dele, é por aquilo que ele faz, seu trabalho atual,
seu charme, tudo isso. Temos encontros com o charme, com o trabalho das
pessoas, e não com as pessoas, não dou a mínima
para elas.
CP: Além disso eles podem roçar, como os gatos?
GD: Se só tiverem isso, o roçar, o latido, é
terrível.
CP: Retomamos os períodos ricos e os períodos pobres
da cultura. Você acha que não estamos em um período
tão rico, vejo você sempre irritado diante da TV, dos
programas
literários, que não citaremos, embora no momento em que
isso for exibido os nomes serão outros, acha que é um
período rico ou um período pobre, o que vivemos?
GD: É pobre, e, ao mesmo tempo, não é
angustiante. Me faz rir. Na minha idade, digo para mim: não
é a primeira vez que há períodos pobres. Digo: o
que vivi desde que tenho idade para me entusiasmar um pouco. Vivi a
Liberação. A Liberação foi um dos
períodos mais ricos que se possa imaginar. Descobria-se ou
redescobria-se tudo, na Liberação. Tinha havido a guerra,
etc. Não era pouco. Descobria-se tudo: o romance americano,
Kafka, havia uma espécie de mundo da descoberta, havia Sartre,
não se pode imaginar o que foi, intelectualmente, o que se
descobria ou redescobria em pintura, etc.
CP: No cinema?
GD: É preciso entender coisas como a grande polêmica:
deve-se queimar Kafka? É inimaginável, hoje parece um
pouco infantil, mas era uma atmosfera criadora. Então conheci o
antes de 68, que foi um período muito rico até depois de
68, enquanto que, nesse entremeio havia períodos pobres.
São normais, períodos pobres. Não é a
pobreza que é incômoda, é a insolência ou a
impudência daqueles que ocupam os períodos pobres. Eles
são mais maldosos do que as pessoas geniais que se animam nos
períodos ricos.
CP: São geniais ou obedientes, pois se fala da
polêmica sobre Kafka na Liberação... Vi fulano de
tal dizer, contente e rindo, que nunca havia lido Kafka.
GD: Claro, são contentes, quanto mais bobos, mais contentes.
São os que consideram, voltamos a isso, que literatura
é contar uma história pessoal. Se se acha isso,
não é preciso ler Kafka. Não há necessidade
de se ler muita coisa, pois se se tem uma escrita bonitinha, se
é, por natureza, igual a Kafka. Não é trabalho.
Como te explicar? Para falar de coisas mais sérias que esses
tolos: fui ver, há pouco tempo, um filme...
CP: De Paradjanov.
GD: Não, esse é admirável, mas um filme
emocionante, de um russo... que fez seu filme há trinta anos, e
ele só passou agora.
CP:
La commissaire?
GD:
La commissaire. Entendi algo que me pareceu
emocionante, o filme era muito bom, perfeito, mas eu pensava, com
terror ou com uma espécie de compaixão, que era um filme
como os russos faziam antes da guerra.
CP: Do tempo de Eisenstein?
GD: Do tempo de Eisenstein, de Dovjenko, estava tudo ali: a
montagem paralela, sublime, etc., como se nada tivesse acontecido desde
a guerra, como se nada tivesse acontecido no cinema. Dizia para mim:
é forçoso, o filme é bom, mas estranho.
CP: Não muito bom.
GD: Por isso não era bom. Era alguém que trabalhava
tão sozinho que... filmava como há vinte anos. Não
que fosse ruim, era muito bom, prodigioso, há vinte anos... E
tudo
o que havia acontecido depois, ele não soubera, crescera em um
deserto, é terrível, atravessar um deserto não
é grande coisa, não é atravessar um período
de deserto. O terrível é nascer nele, crescer em um
deserto, é horrível, suponho, pois deve-se ter uma
impressão de solidão.
CP: Para os que têm 18 anos agora?
GD: Sim, sobretudo porque... é esse o problema nos
períodos pobres. Quando as coisas desaparecem ninguém se
dá conta, por uma razão simples, quando alguma coisa
desaparece, ela não faz falta. O período staliniano fez
desaparecer a literatura russa, mas os russos não se deram
conta, o grosso dos russos, o conjunto dos russos não se deu
conta, uma literatura que foi perturbadora em todo o século 19,
desaparece. Dizem: “agora há os dissidentes, etc.”,
mas no âmbito do povo, do povo russo, sua literatura, sua pintura
desapareceram, e ninguém se deu conta. Para se dar conta do que
acontece hoje, há, é claro, novos jovens que são,
com certeza, geniais. Suponhamos, a expressão não
é boa, os novos Beckett de hoje...
CP: Tive medo, pensei que fosse dizer os
Novos Filósofos.
GD: Mas os novos Beckett hoje, suponhamos que não sejam
publicados. Afinal, por pouco Beckett não foi publicado.
É
evidente que não faltaria nada. Por definição, um
grande autor ou um gênio é alguém que faz algo
novo, se esse novo não aparece, isso não incomoda,
não faz falta a ninguém, já que não se
tinha idéia disso. Se Proust, Kafka não tivessem sido
publicados, não se pode dizer que Kafka faria falta. Se o outro
tivesse queimado toda a obra de Kafka, ninguém poderia dizer:
Ah, como faz falta! Pois não se teria idéia do que
desapareceu. Se os novos Beckett são impedidos de ser publicados
pelo sistema atual da edição, não se poderá
dizer: Ah, como fazem falta! Ouvi uma declaração, que
talvez seja a mais descarada que já ouvi em minha vida.
Não ouso dizer quem. É
alguém ligado ao ramo editorial que, em um jornal, atreveu-se a
declarar:
“Hoje não arriscamos mais cometer os
erros da Gallimard...”
CP: No tempo de Proust?
GD: Recusando Proust, pois com os meios que se tem hoje...
CP: Os caçadores de cabeças...
GD: Acredita-se que se têm, hoje, os meios para encontrar
os
novos Proust, e os novos Beckett. Significa que se teria um contador
Geiger e o novo Beckett, ou seja, alguém perfeitamente
inimaginável, já que não se sabe o que ele faria
de novo, ele emitiria um som...
CP: Se o passassem sobre sua cabeça?
GD: O que define a crise hoje, pois há todas essas bobagens?
Vejo a crise hoje ligada a três coisas, mas ela não
durará, sou muito otimista, o que define um período de
deserto é, primeiramente, que os jornalistas conquistaram a
forma-livro. Eles sempre escreveram, acho bom que escrevam. Mas quando
começaram a escrever livros, eles se deram conta de que passavam
a outra
forma, que não era a mesma coisa que escrever seu artigo.
CP: Antes os escritores é que eram os jornalistas.
Mallarmé podia
fazer jornalismo. O inverso não aconteceu.
GD: Agora é o inverso, o jornalista como jornalista
conquistou a forma-livro, acha normal escrever um livro, como se fosse
só um artigo. Isso não é bom. A segunda
razão é que se generalizou a idéia de que qualquer
um pode escrever, pois a escrita é vista como uma historinha de
cada um, contada a partir dos arquivos de família, sejam eles
constituídos de anotações ou guardados na
memória. Todo mundo
teve uma história de amor, todo mundo teve uma avó
doente, uma mãe que morria de modo terrível. Dizem: isso
dá um romance. Mas isso não dá um romance de modo
algum... A terceira razão é que, os verdadeiros clientes
mudaram, e percebe-se isso, exceto as pessoas... Vocês
estão a par, os clientes mudaram, quero dizer, quem são
os clientes da televisão? Não são mais os
ouvintes, são os anunciantes. São eles os verdadeiros
clientes. Os ouvintes têm o que os anunciantes querem.
CP: Os telespectadores. Qual é a terceira razão?
GD: Os anunciantes são os verdadeiros clientes, eu dizia, na
edição há um risco de que os verdadeiros clientes
dos editores não sejam os leitores em potencial, que sejam os
distribuidores, quando eles forem, realmente, os clientes dos editores,
o que acontecerá? O que interessa aos distribuidores é a
rotação rápida, quer dizer, coisas de grandes
mercados de rápida rotação, regime do
best-seller,
etc.; ou seja, que toda a literatura, se ouso dizer,
à la Beckett,
toda a
literatura criadora será esmagada por natureza.
CP: Isso já existe, pré-formam-se as necessidades de
um público.
GD: Sim, mas é isso que define o período de seca,
modelo Pivot. É a nulidade, é a literatura, é o
desaparecimento de qualquer crítica em nome da
promoção comercial, mas quando digo: não é
grave, quero dizer, é evidente que haverá circuitos
paralelos, ou um circuito onde haverá um mercado negro, etc.,
não é possível que um povo viva... A Rússia
perdeu sua literatura, ela vai reconquistá-la, tudo se ajeita,
os períodos ricos sucedem aos períodos pobres. Ai dos
pobres!
CP: Ai dos pobres? Sobre essa idéia de mercado paralelo ou
negro, já faz muito tempo que os sujeitos são
pré-formados, ou seja, um ano vê-se, claramente, nos
livros publicados, a guerra, no ano seguinte é a morte dos pais,
no outro é a ligação com a natureza, mas nada
parece se formar. Como isso ressurge? Já viu ressurgir um
período rico de um pobre?
GD: Já.
CP: Você assistiu?
GD: Sim, depois da Liberação, a coisa não ia
bem, e então houve 68. Entre o grande período criador da
Liberação e o início da
Nouvelle Vague...
CP: Quando foi? Em 60?
GD: 60, e mesmo antes. Entre 60 e 72 houve, de novo, um
período rico. E isso se reformou em... É um pouco o que
diz Nietzsche, alguém lança uma flecha, uma flecha no
espaço, ou então um período, uma coletividade
lança uma flecha e depois ela cai, depois alguém a pega e
a reenvia para outro lugar. A criação funciona assim, a
literatura passa sobre desertos.
CP: D de Desejo. Tudo o que sempre quiseram saber sobre o desejo.
Primeira lição: Só se pode desejar em um conjunto.
Então, sempre se deseja um todo. Vamos passar a D. Para D,
preciso de meus papéis, pois vou ler o que há no
Petit
Larousse Illustré, em “Deleuze”, que
também se escreve com D. Lê-se: "Deleuze, Gilles,
filósofo francês, nascido em Paris, em 1925".
GD: Talvez hoje esteja no
Larousse.
CP: Hoje, estamos em 1988.
GD: Eles mudam todo ano.
CP: “Com Félix Guattari, ele mostra a
importância do desejo e seu aspecto revolucionário frente
a toda instituição, até mesmo
psicanalítica”. E indicam a obra que demonstra tudo isso:
O
anti-Édipo, em 1972. Como você é, aos olhos de
todos, o filósofo do desejo, eu gostaria que falássemos
do desejo. O que era o desejo? Vamos colocar a questão do modo
mais simples: quando
O anti-Édipo...
GD: Não era o que se pensou, em todo caso. Estou certo
disso, mesmo naquele momento, ou seja, as pessoas mais encantadoras que
eram... foi uma grande ambigüidade, um grande mal-entendido, um
pequeno mal-entendido. Queríamos dizer uma coisa bem simples.
Tínhamos uma grande ambição, a saber, que
até esse livro, quando se faz um livro é porque se
pretende dizer algo novo. Achávamos que as pessoas antes de
nós não tinham entendido bem o que era o desejo, ou seja,
fazíamos nossa tarefa de filósofo, pretendíamos
propor um novo conceito de desejo. As pessoas, quando não fazem
filosofia, não devem crer que é um conceito muito
abstrato, ao contrário, ele remete a coisas bem simples,
concretas. Veremos isso. Não há conceito
filosófico que não remeta a determinações
não filosóficas, é simples, é bem concreto.
Queríamos dizer a coisa mais simples do mundo: que até
agora vocês falaram abstratamente do desejo, pois extraem um
objeto que é, supostamente, objeto de seu desejo. Então
podem dizer: desejo uma mulher, desejo partir, viajar, desejo isso e
aquilo. E nós dizíamos algo realmente simples:
vocês nunca desejam alguém ou algo, desejam sempre um
conjunto. Não é complicado. Nossa questão era:
qual é a natureza das relações entre elementos
para que haja desejo, para que eles se tornem desejáveis? Quero
dizer, não desejo uma mulher, tenho vergonha de dizer uma coisa
dessas. Proust disse, e é bonito em Proust: não desejo
uma mulher, desejo também uma paisagem envolta nessa mulher,
paisagem que posso não conhecer, que pressinto e enquanto
não tiver desenrolado a paisagem que a envolve, não
ficarei contente, ou seja, meu desejo não terminará,
ficará insatisfeito. Aqui considero um conjunto com dois termos,
mulher, paisagem, mas é algo bem diferente. Quando uma mulher
diz: desejo um vestido, desejo tal vestido, tal
chemisier,
é evidente que não deseja tal vestido em abstrato. Ela o
deseja em um contexto de vida dela, que ela vai organizar o desejo em
relação não apenas com uma paisagem, mas com
pessoas que são suas amigas, ou que não são suas
amigas, com sua profissão, etc. Nunca desejo algo sozinho,
desejo bem mais, também não desejo um conjunto, desejo em
um conjunto. Podemos voltar, são fatos, ao que dizíamos
há pouco sobre o álcool, beber. Beber nunca quis dizer:
desejo beber e pronto. Quer dizer: ou desejo beber sozinho,
trabalhando, ou beber sozinho, repousando, ou ir encontrar os amigos
para beber, ir a um certo bar. Não há desejo que
não corra para um agenciamento. O desejo sempre foi, para mim,
se procuro o termo abstrato que corresponde a desejo, diria: é
construtivismo. Desejar é construir um agenciamento, construir
um conjunto, conjunto de uma saia, de um raio de sol...
CP: De uma mulher.
GD: De uma rua. É isso. O agenciamento de uma mulher, de uma
paisagem.
CP: De uma cor...
GD: De uma cor, é isso um desejo. É construir um
agenciamento, construir uma região, é realmente agenciar.
O desejo é construtivismo.
O anti-Édipo, que
tentava...
CP: Espere, eu queria...
GD: Sim?
CP: É por ser um agenciamento, que você precisou,
naquele momento, ser dois para escrever por ser em um conjunto, que
precisou de Félix, que surgiu em sua vida de escritor?
GD: Félix faria parte do que diremos, talvez, sobre a
amizade, sobre a relação da filosofia com algo que
concerne à amizade, mas, com certeza, com Félix, fizemos
um
agenciamento. Há agenciamentos solitários, e há
agenciamentos a dois. O que fizemos com Félix foi um
agenciamento a dois, onde algo passava entre os dois, ou seja,
são fenômenos físicos, é como uma
diferença, para que um acontecimento aconteça, é
preciso uma diferença de potencial, para que haja uma
diferença de potencial precisa-se de dois níveis.
Então algo se passa, um raio passa, ou não, um
riachinho... É do campo do desejo. Mas um desejo é isso,
é construir. Ora, cada um de nós passa seu tempo
construindo, cada vez que alguém diz: desejo isso, quer dizer
que ele está construindo um agenciamento, nada mais, o desejo
não é nada mais.
CP: É um acaso se... porque o desejo é sentido,
enfim, existe em um conjunto ou em um agenciamento, que
O
anti-Édipo, onde você começa a falar do desejo,
é o primeiro livro que você escreve com outra pessoa, com
Félix Guattari?
GD: Não, você tem razão, era preciso entrar
nesse agenciamento novo para nós, escrever a dois, que
nós dois não vivíamos da mesma maneira, para que
algo acontecesse, ou seja, e esse algo era, finalmente, uma
hostilidade, uma reação contra as
concepções dominantes do desejo, as
concepções psicanalíticas. Era preciso ser dois,
foi preciso Félix, vindo da psicanálise, eu me
interessando por esses temas, era preciso tudo isso para dizermos que
havia lugar para fazer uma concepção construtiva,
construtivista do desejo.
CP: Você poderia definir, de modo sucinto, como vê a
diferença entre o construtivismo e a interpretação
analítica?
GD: Acho que é bem simples. Nossa oposição
à psicanálise é múltipla, mas quanto ao
problema do desejo, é... é que os psicanalistas falam do
desejo como os padres. Não é a única
aproximação, os psicanalistas são padres. De que
forma falam do desejo? Falam como um grande lamento da
castração. A castração é pior que o
pecado original. É uma espécie de maledicência
sobre o desejo, que é assustadora. O que tentamos fazer em
O
anti-Édipo? Acho que há três pontos, que se
opõem diretamente à psicanálise. Esses três
pontos são... isso por meu lado, acho que Félix Guattari
também não, não temos nada para mudar nesses
três pontos. Estamos persuadidos, achamos em todo caso, que o
inconsciente não é um teatro, não é um
lugar onde há Édipo e Hamlet que representam sempre suas
cenas. Não é um teatro, é uma fábrica,
é produção. O inconsciente produz. Não
pára de produzir. Funciona como uma fábrica. É o
contrário da visão psicanalítica do inconsciente
como teatro, onde sempre se agita um Hamlet, ou um Édipo, ao
infinito. Nosso segundo tema é que o delírio, que
é muito ligado ao desejo, desejar é delirar, de certa
forma, mas se olhar um delírio, qualquer que seja ele, se olhar
de perto, se ouvir o delírio que for, não tem nada a ver
com o que a psicanálise reteve dele, ou seja, não se
delira sobre seu pai e sua mãe, delira-se sobre algo bem
diferente, é aí que está o segredo do
delírio, delira-se sobre o mundo inteiro, delira-se sobre a
história, a geografia, as tribos, os desertos, os povos...
CP: ... o clima.
GD: ... as raças, os climas, é em cima disso que se
delira. O mundo do delírio é: “Sou um bicho, um
negro!”, Rimbaud. É: onde estão minhas tribos? Como
dispor minhas tribos? Sobreviver no deserto, etc. O deserto é...
O delírio é geográfico-político. E a
psicanálise reduz isso a determinações familiares.
Posso dizer, sinto isso, mesmo depois de tantos anos, depois de
O
anti-Édipo, digo: a psicanálise nunca entendeu nada
do fenômeno do delírio. Delira-se o mundo, e não
sua pequena família. Por isso que... Tudo isso se mistura. Eu
dizia: a literatura não é um caso privado de
alguém, é a mesma coisa, o delírio não
é sobre o pai e a mãe. O terceiro ponto... Significa
isso, o desejo se estabelece sempre, constrói agenciamentos, se
estabelece em agenciamentos, põe sempre em jogo vários
fatores. E a psicanálise nos reduz sempre a um único
fator, e sempre o mesmo, ora o pai, ora a mãe, ora não
sei o que, ora o falo, etc. Ela ignora tudo o que é
múltiplo, ignora o construtivismo, ou seja, agenciamentos. Dou
um exemplo: falávamos de animal, há pouco. Para a
psicanálise, o animal é uma imagem do pai. Um cavalo
é uma imagem do pai. É ignorar o mundo! Penso no pequeno
Hans. O pequeno Hans é uma criança sobre a qual Freud
dá sua opinião, ele assiste um cavalo que cai na rua, e o
charreteiro que lhe dá chicotadas, e o cavalo que dá
coices para todos os lados. Antes do carro, era um espetáculo
comum nas ruas, devia ser uma grande coisa para uma criança. A
primeira vez que um garoto via um cavalo caído na rua e que um
cocheiro meio bêbado tentava levantá-lo com chicotadas,
devia ser uma emoção, era a chegada da rua, a chegada na
rua, o acontecimento da rua, sangrento, tudo isso... E então
ouvem-se os psicanalistas, falar, enfim, imagem de pai, etc., mas
é na cabeça deles que a coisa não vai bem. O
desejo foi movido por um cavalo que cai e é batido na rua, um
cavalo morre na rua, etc. É um agenciamento fantástico
para um garoto, é perturbador até o fundo. Outro exemplo,
posso dizer... Falávamos de animal. O que é um animal?
Mas não há um animal que seria a imagem do pai. Os
animais, em geral, andam em matilhas, são matilhas. Há um
caso que me alegra muito. É um texto que adoro, de Jung, que
rompeu com Freud, depois de uma longa colaboração. Jung
conta a Freud que teve um sonho, um sonho de ossuário, sonhou
com um ossuário. E Freud não compreende nada,
literalmente, ele diz o tempo todo: se sonhou com um osso, é a
morte de alguém, quer dizer a morte de alguém. E Jung
não pára de lhe dizer: não estou falando de um
osso, sonhei com um ossuário... Freud não compreende.
Não vê a diferença entre um ossuário e um
osso, ou seja, um ossuário são centenas de ossos,
são mil, dez mil ossos. Isso é uma multiplicidade,
é um agenciamento, é... passeio em um ossuário, o
que significa isso? Por onde o desejo passa? Em um agenciamento
é sempre um coletivo. Coletivo, construtivismo, etc. É
isso o desejo. Onde passa meu desejo entre os mil crânios, os mil
ossos? Onde passa meu desejo na matilha? Qual é minha
posição na matilha? Sou exterior à matilha? Estou
ao lado, dentro, no centro dela? Tudo isso são fenômenos
de desejo. É isso o desejo.
CP: Como o
O anti-Édipo foi escrito em 72, esse
agenciamento coletivo vinha a calhar depois de 68, era toda uma
reflexão... daqueles anos e contra a psicanálise, que
continuava seu negócio de pequena loja...
GD: Só o fato de dizer: o delírio delira as
raças e as tribos, delira os povos, delira a história e a
geografia, me parece ter estado de acordo com 68. Ou seja, parece-me
ter
trazido um pouco de ar são a todo esse ar fechado e
malsão dos delírios pseudo-familiais. Vimos que era
isso, o desejo. Se começo a delirar, não é para
delirar sobre minha infância, aí também, sobre
minha história privada. Delira-se... O delírio é
cósmico... Delira-se sobre o fim do mundo, delira-se sobre as
partículas, os elétrons e não sobre
papai-mamãe... é evidente.
CP: Sobre esse agenciamento coletivo do desejo, penso em certos
contra-sensos. Lembro-me que em Vincennes, em 72, na faculdade, havia
pessoas que punham em prática esse desejo e isso acabava em
amores coletivos, não tinham compreendido bem. Houve muitos
loucos em Vincennes, como vocês partiam de uma
esquizo-análise para combater a psicanálise, todo mundo
achava que era legal ser louco, ser esquizo. Víamos cenas
inverossímeis entre os estudantes. Queria que contasse casos
engraçados ou não desses contra-sensos sobre o desejo.
GD: Eu poderia falar dos contra-sensos abstratamente. Consistiam em
duas coisas, havia dois casos, que dá no mesmo. Havia os que
pensavam que o desejo era o espontaneísmo, e havia todo tipo de
movimentos espontâneos, o espontaneísmo.
CP: Os célebres
maos-spontex...
GD: E os outros que pensavam que o desejo era a festa. Para
nós, não era nem um nem outro, mas não tinha
importância, pois, de qualquer modo, havia agenciamentos que
aconteciam, havia coisas que mesmo os loucos... havia tantos, de todos
os tipos. Fazia parte do que acontecia naquele momento, em Vincennes.
Mas os loucos tinham sua disciplina, tinham sua maneira de... faziam
seus discursos, suas intervenções, entravam em um
agenciamento, tinham seu agenciamento, mas entravam em agenciamentos.
Tinham uma espécie de astúcia, de compreensão, de
grande benevolência, os loucos. Se quiser, na prática,
eram séries de agenciamentos que se faziam e desfaziam. Na
teoria, o contra-senso era dizer: o desejo é a espontaneidade.
De modo que éramos chamados de espontaneístas, ou
então era a festa, mas não era isso. Era... a filosofia
dita do desejo consistia, unicamente, em dizer para as pessoas:
não vão ser psicanalizados, nunca interpretem,
experimentem agenciamentos, procurem agenciamentos que lhes convenham.
O que era um agenciamento? Um agenciamento, para mim, e Félix,
não que ele pensasse diferentemente, pois era, talvez...
não sei. Para mim, eu manteria que havia quatro componentes de
agenciamento. Por alto, quatro, não prefiro quatro a seis... Um
agenciamento remetia a estados de coisas, que cada um encontre estados
de coisas que lhe convenha. Há pouco, para beber... gosto de um
bar, não gosto de outro,
alguns preferem certo bar, etc... Isso é um estado de coisas.
Nas dimensões do agenciamento, enunciados, tipos de enunciados,
e cada um tem seu estilo, há um certo modo de falar, andam
juntos, no bar, por exemplo, há amigos, e há uma certa
maneira de falar com os amigos, cada bar tem seu estilo. Digo bar, mas
vale para qualquer coisa. Um agenciamento comporta estados de coisas e
enunciados, estilos de enunciação. É interessante,
a História é feita disto, quando aparece um novo tipo de
enunciado? Por exemplo, na revolução russa, os enunciados
do tipo leninista, quando eles aparecem, como, em que forma? Em 68,
quando apareceram os primeiros enunciados ditos de 68? É bem
complexo. Todo agenciamento implica estilos de
enunciação. Implica territórios, cada um com seu
território, há territórios. Mesmo numa sala,
escolhemos um território. Entro numa sala que não
conheço, procuro o território, lugar onde me sentirei
melhor. E há processos que devemos chamar de
desterritorialização, o modo como saímos do
território. Um agenciamento tem quatro dimensões: estados
de coisas, enunciações, territórios, movimentos de
desterritorialização. E é aí que o desejo
corre...
CP: Você não se sente responsável pelas pessoas
que tomaram drogas? Ou, lendo muito ao pé da letra
O
anti-Édipo, não é como Catão, que
incita
os jovens a fazer bobagens?
GD: Sentimo-nos responsáveis por tudo, se algo dá
errado.
CP: E os efeitos de
O anti-Édipo?
GD: Sempre me esforcei para que desse certo. Em todo caso, nunca,
acho,
é minha única honra, nunca me fiz de esperto com essas
coisas, nunca disse a um estudante: é isso, drogue-se você
tem razão. Sempre fiz o que pude para que ele saísse
dessa, porque sou muito sensível à coisa minúscula
que de repente faz com que tudo vire trapo. Que ele beba, muito bem...
Ao mesmo tempo, nunca pude criticar as pessoas, não gosto de
criticá-las. Acho que se deve ficar atento para o ponto em que a
coisa não funciona mais. Que bebam, se droguem, o que quiserem,
não somos policiais, nem pais, não sou eu quem deve
impedi-los ou ... mas fazer tudo para que não virem trapos. No
momento em que há risco, eu não suporto. Suporto bem
alguém que se droga, mas alguém que se droga de tal modo
que, não sei, de modo selvagem, de modo que digo para mim:
pronto, ele vai se ferrar, não suporto. Sobretudo o caso de um
jovem, não suporto um jovem que se ferra, não é
suportável. Um velho que se ferra, que se suicida, ele teve sua
vida, mas um jovem que se ferra por besteira, por imprudência,
porque bebeu demais... Sempre fiquei dividido entre a impossibilidade
de criticar alguém e o desejo absoluto, a recusa absoluta de que
ele vire trapo. É um desfiladeiro estreito, não posso
dizer que há princípios, a gente sai fora como pode, a
cada vez. É verdade que o papel das pessoas, nesse momento,
é de tentar salvar os garotos, o quanto se pode. E
salvá-los não significa fazer com que sigam o caminho
certo, mas impedi-los de virar trapo. É só o que quero.
CP: Mas sobre os efeitos de
O anti-Édipo, houve
efeitos?
GD: Foi impedir que eles virassem trapos, que naquele momento...
que um cara que desenvolvia... um início de esquizofrenia fosse
colocado em boas condições, não fosse jogado num
hospital repressivo, tudo isso... Ou então que alguém que
não suportava mais, um alcoólatra, onde ia mal, fazer com
que ele parasse...
CP: Porque era um livro revolucionário, na medida em que
parecia, para os inimigos desse livro, e para os psicanalistas, uma
apologia da permissividade, e dizer que tudo era desejo...
GD: De forma alguma... Esse livro, ou seja, quando se lê esse
livro, ele sempre teve uma prudência, me parece, extrema. A
lição era: não se tornem trapos. Quando nos
opúnhamos..., não paramos de nos opor ao processo
esquizofrênico como o que ocorre num hospital, e para nós,
o terror era produzir uma criatura de hospital. Tudo, menos isso! E
quase diria que louvar o aspecto de valor da “viagem”,
daquilo que, naquele momento, os anti-psiquiatras chamavam de viagem ou
processo esquizofrênico, era um modo de evitar, de conjurar a
produção de trapos de hospital, a produção
dos esquizofrênicos, a fabricação de
esquizofrênicos.
CP: Você acha, para terminar com
O anti-Édipo,
que há ainda efeitos desse livro, 16 anos depois?
GD: Sim, pois é um bom livro, pois há uma
concepção do inconsciente. É o único caso
em que houve uma concepção do inconsciente desse tipo,
sobre os dois ou três pontos: as multiplicidades do inconsciente,
o delírio como delírio-mundo, e não
delírio-família, o delírio cósmico, das
raças, das tribos, isso é bom. O inconsciente como
máquina, como fábrica e não como teatro.
Não tenho nada a mudar nesses três pontos, que continuam
absolutamente novos, pois toda a psicanálise se reconstituiu.
Para mim, espero, é um livro que será redescoberto,
talvez. Rezo para que o redescubram.
CP: E de Enfance [Infância]. Lembranças distantes. Os
primeiros anos de vida, a crise, a Frente Popular e a chegada da
guerra.
CP: E de Enfance [Infância]. Você costuma dizer que
começou sua vida na Av. Wagram, pois nasceu no 17º distrito
de Paris. Depois, foi morar com sua mãe na R. Daubigny, no
17º distrito, e, agora, mora perto da Place Clichy, bairro mais
pobre, também no 17º, R. de Bizerte. Como estará
morto quando este filme for exibido, posso dar o seu endereço.
Primeiro, quero saber se a sua família é o que chamamos
de burguesa e de direita.
GD: Eu sempre digo onde moro quando me fazem a pergunta. Houve de
fato uma queda. Comecei por cima, pelo alto do 17°, um bairro muito
bonito. E durante a minha infância, vivi a crise antes da guerra.
Uma das lembranças que tenho da infância durante a crise
era a quantidade de apartamentos vazios. As pessoas estavam sem
dinheiro mesmo e havia apartamentos para alugar por toda a cidade. Meus
pais tiveram de deixar o apartamento chique do alto do 17º, perto
do Arco do Triunfo, e desceram, mas ainda era bom, perto do Boulevard
Malesherbes. Era numa ruazinha, a R. Daubigny. Depois, quando eu voltei
para Paris, já mais velho, fui para a fronteira do 17º
distrito, que é mais proletário, na R. Nollet e R.
Toussaint. Perto da casa onde morou Verlaine, que também
não era rico. Foi mesmo uma queda. Dentro de alguns anos,
não sei onde estarei. Mas não deve melhorar em nada.
CP: Em Saint-Quen, talvez?
GD: É, pode ser. Mas a minha família era uma
família burguesa. Não era de direita, ou melhor era, sim,
de esquerda é que não era. Preciso me situar, pois
não tenho lembranças de infância. Não tenho
lembranças porque a memória é uma faculdade que
deve afastar o passado em vez de acioná-lo. É preciso
muita memória para rejeitar o passado, porque não
é um arquivo. Então, tenho esta lembrança: havia
aquelas placas nos apartamentos onde estava escrito
“Aluga-se”. Eu vivi muito aquela crise.
CP: Que anos eram estes?
GD: Não lembro os anos. Não sei, devia ser entre...
Entre 1930-1935. 1930... Não me lembro mais.
CP: Você tinha 10 anos.
GD: As pessoas não tinham dinheiro. Nasci em 1925. E me
lembro da preocupação com o dinheiro. Foi o que me
impediu de ir no colégio dos jesuítas, pois meus pais
não tinham
mais dinheiro. Eu estava destinado aos jesuítas e acabei no
liceu por causa da crise. Mas o outro aspecto... Deixe-me ver... Havia
outro aspecto da crise, mas não sei mais. Não sei mais,
mas não importa. E então, houve a guerra. Quando digo que
era uma família de direita... Eu me lembro muito bem, eles
não se recuperaram e é por isso que entendo melhor alguns
patrões de hoje. O pavor que eles tinham da Frente Popular era
uma coisa inacreditável. Talvez muitos patrões não
tenham vivido isso, mas deve restar alguns que conheceram esta fase.
Para eles, a Frente Popular ficou marcada como a imagem do caos, pior
do que Maio de 68. E me lembro de que toda esta burguesia de direita
percebia o sintoma. Todos eram anti-semitas e Leon Blum foi uma coisa
impressionante. O ódio que Mendès-France carregou nas
costas não foi nada perto do que Blum carregou. Pois ele foi de
fato o primeiro. A reação causada pelas férias
remuneradas foi impressionante!
CP: O primeiro judeu de esquerda conhecido?
GD: Sim, eu diria que Blum foi pior do que o diabo. Não
é possível entender como Pétain tomou o poder
daquela forma sem conhecer o nível de anti-semitismo da
França e da burguesia francesa naquele momento. O ódio
das medidas sociais tomadas pelo governo de Leon Blum. Foi
impressionante! Imagine meu pai, que era meio “Cruz de
Fogo”... Isso era comum naquela época! Portanto, era uma
família de direita inculta. Havia uma burguesia culta, mas a
minha era inculta. Completamente inculta. Mas meu pai era, como se
costumava chamar, um homem muito distinto, afável, distinto e
encantador. Eu ficava espantado com esta violência contra Blum.
Ele vinha da guerra de 1914. Tudo se encaixa. É um mundo
fácil de ser entendido em geral, mas que não se pode
imaginar em detalhes. Os combatentes da Guerra de 1914, o
anti-semitismo, o regime da crise, a própria crise... Que crise
era essa que ninguém entendia?
CP: Qual era a profissão dele?
GD: Era engenheiro. Mas era um engenheiro muito especial. Tenho a
lembrança de duas atividades dele. Não sei se foi
criação dele ou se trabalhava com isso, mas era um
produto para impermeabilizar os tetos. Impermeabilização
dos tetos. Mas com a crise, ele ficou com apenas um operário, um
italiano. Ainda mais um estrangeiro... As coisas iam muito mal. O
negócio acabou falindo e ele foi parar em uma indústria
mais “séria” que fabricava balões. Aqueles
balões... Aquelas coisas... As aeronaves. Entende, não
é? Mas foi num momento em que não serviam mais para nada.
Tanto que, em 1939, voavam pelos céus de Paris para frear
aviões alemães. Eram como pombos voadores. Quando os
alemães se apoderaram da fábrica em que meu pai
trabalhava, eles foram bem mais sensatos e a transformaram em
fábrica de botes infláveis,
que teriam mais
serventia. Mas não fizeram balões, nem zepelins.
Então, eu vi o nascimento da guerra. Eu devia ter uns 14 anos e
me lembro muito bem das pessoas... elas sabiam muito bem que tinham
ganho um ano com Munique; um ano e alguns meses, mas a guerra estava
aí. A guerra se sucedeu à crise. Era uma atmosfera muito
tensa em que as pessoas mais velhas do que eu devem ter vivido momentos
terríveis. Quando os alemães chegaram de fato, devastaram
a Bélgica, entraram na França e tudo o mais. Eu estava em
Deauville, porque era o lugar em que meus pais sempre passavam as
férias de verão. Eles já tinham voltado. Foram e
nos deixaram lá, o que era impensável, pois
tínhamos uma mãe que nunca havia nos deixado, etc...
Ficamos em uma pensão; nossa mãe tinha nos deixado com
uma senhora que era a dona desta pensão. E eu fui à
escola durante um ano em Deauville, em um hotel que foi transformado em
liceu. E os alemães estavam chegando. Não, estou
confundindo tudo. Isso foi no início da guerra. De qualquer
forma, eu estava em Deauville. Quando, há pouco, falei das
férias remuneradas, eu me lembro que a chegada das férias
remuneradas à praia de Deauville foi uma coisa! Para um
cineasta, isso poderia virar uma obra-prima, pois era prodigioso ver
aquela gente vendo o mar pela primeira vez! Eu vi uma pessoa vendo o
mar pela primeira vez na vida e é esplêndido! Era uma
menina da região de Limousin que estava conosco e que viu o mar
pela primeira vez. Se existe alguma coisa inimaginável quando
nunca se o viu, esta coisa é o mar. A gente pode imaginar que
seja grandioso, infinito, mas tudo isso perde a força quando se
vê o mar. Aquela menina ficou umas quatro ou cinco horas diante
do mar, completamente abobalhada, e não se cansava de ver um
espetáculo tão sublime, tão grandioso!
Então, na praia de Deauville, que sempre tinha sido exclusiva
dos burgueses, como se fosse propriedade deles, de repente, chega o
povo das férias remuneradas... Pessoas que nunca tinham visto o
mar. E foi fantástico. Se o ódio entre as classes tem
algum sentido são palavras como as que dizia a minha mãe
— que, no entanto, era uma mulher fabulosa —, sobre a
impossibilidade de se freqüentar uma praia em que havia gente como
aquela. Foi muito duro. Acho que eles, os burgueses, nunca esqueceram.
Maio de 68 não foi nada perto disso.
CP: Fale mais do medo que eles tinham.
GD: O medo é de que isso nunca fosse parar. Se davam
férias remuneradas aos operários, todos os
privilégios burgueses estavam ameaçados. Os locais
freqüentados eram como questões de território. Se as
empregadas vinham para as praias de Deauville era como se, de repente,
voltássemos à era dos dinossauros. Era uma
agressão. Pior do que os alemães. Pior do que os tanques
alemães chegando na praia! Você entende? Era
indescritível!
CP: Era gente de outro mundo.
GD: E isso era apenas um detalhe, mas quanto ao que estava
acontecendo
nas fábricas? Nunca esqueceram isso. Acho até que este
medo é hereditário. Não quero dizer que Maio de 68
não foi nada. É outra história. Mas também
não se esqueceram de 68. Enfim... Eu estava lá em
Deauville sem meus pais, e com meu irmão. Quando os
alemães realmente invadiram, foi aí que deixei de ser
bobo. Eu era um rapaz extremamente medíocre na escola,
não tinha interesse por nada, a não ser por uma
coleção de selos, que era a minha maior atividade e eu
era um péssimo aluno. Até que aconteceu comigo o que
acontece com muita gente. As pessoas que despertam sempre o são
por causa de alguém em algum momento. E no meu caso, neste hotel
que virou escola, havia um cara jovem que me pareceu
extraordinário porque falava muito bem. Para mim, foi um
despertar absoluto. Eu tive a sorte de encontrar este cara que, mais
tarde, ficou relativamente conhecido. Primeiro, porque ele tinha um pai
famoso e, depois, porque ele foi muito ativo na esquerda, só que
bem mais tarde. Ele se chamava Halbwachs. Pierre Halbwachs, filho do
sociólogo. Naquela época, ele era muito jovem e tinha uma
cara estranha. Era muito magro, muito alto... Na minha
lembrança, ele era alto. E ele só tinha um olho. Um olho
aberto e o outro fechado. Não tinha nascido assim, mas era
assim, como um cíclope. Tinha cabelos muito cacheados, como uma
cabra... Aliás, mais do que um carneiro. Quando fazia frio, ele
ficava verde, roxo, tinha uma saúde extremamente frágil,
tanto que ele foi reformado no exército e colocado como
professor durante a guerra para preencher as vagas. Para mim, foi uma
revelação. Ele era cheio de entusiasmo. Não sei
mais em que ano eu estava, talvez 3º ou 4º ano ginasial, mas
ele comunicava aos alunos, ou pelo menos a mim, algo que foi uma
reviravolta para mim. Eu estava descobrindo alguma coisa. Ele nos
falava de Baudelaire e lia muito bem. E nós nos aproximamos.
Claro, ele tinha percebido que me impressionava muito. Eu me lembro
que, no inverno, ele me levava para a praia de Deauville. E eu o
seguia, colava nele, literalmente. Eu era seu discípulo. Tinha
encontrado um mestre. Nós nos sentávamos nas dunas e, em
meio ao vento, ao mar, era fantástico, ele me lia
Les
nourritures terrestres. Ele gritava, pois não havia
ninguém na praia no inverno. Ele gritava: “Les nourritures
terrestres”, e eu estava sentado ao lado dele, com medo de
alguém aparecer. Eu achava tudo aquilo estranho. E ele lia
muitas coisas, era muito variado. Ele me fez descobrir Anatole France,
Baudelaire, Gide... Acho que estes eram os principais. Eram as suas
grandes paixões. E eu fui transformado, absolutamente
transformado. Mas logo começaram os comentários sobre
aquele homem com aquela figura, aquele seu olho e o menino que estava
sempre atrás dele. Iam sempre juntos à praia, etc. A
senhora que me hospedava ficou logo preocupada, me chamou, disse que
era responsável por mim na falta de meus pais e que queria me
alertar sobre certas relações. Eu não entendi
nada. Não entendi, pois, se havia uma relação
pura, incontestável e aberta, era justamente a nossa. Só
depois, eu percebi que consideravam Pierre Halbwachs um pederasta
perigoso. Então, eu disse a ele: “Estou chateado, pois a
senhora que me hospeda disse...” Eu o chamava de
“senhor” e ele me chamava de “você”.
“Ela disse que não devo vê-lo, que não
é normal, nem correto”. E ele me disse: “Não
se preocupe, nenhuma senhora resiste a mim. Vou falar com ela, explicar
tudo e ela ficará tranqüila”. Ele tinha me tornado
esperto o bastante para me deixar em dúvidas. Eu não
estava tranqüilo. Tinha um pressentimento ruim. Achava que a velha
senhora não se convenceria. E, de fato, foi um desastre. Ele foi
ver a senhora que escreveu imediatamente para meus pais pedindo que me
tirassem de lá rápido porque ele era alguém
extremamente suspeito. A tentativa dele foi um fracasso total. Mas eis
que os alemães chegaram. A guerra estava começando. Os
alemães chegaram e meu irmão e eu saímos de
bicicleta ao encontro de meus pais que tinham ido para Rochefort. A
fábrica tinha se mudado para lá, fugindo-se dos
alemães. Fomos de Deauville a Rochefort de bicicleta e ainda me
lembro de ter ouvido o famoso discurso infame de Pétain no
albergue de uma aldeia. Meu irmão e eu estávamos de
bicicleta e, em um cruzamento, quem encontramos? Parecia desenho
animado: em um carro, estavam o velho Halbwachs, o filho e um esteta
que se chamava Bayer. Eles estavam indo para perto de La Rochelle. Era
o destino. Mas estou contando isso só para dizer que, depois de
ter reencontrado Halbwachs, eu o conheci bem melhor e não tinha
mais admiração por ele. Mas isso me mostrou que foi no
momento em que eu o admirei com 14, 15 anos que eu tive razão.
CP: Depois, voltou a Paris, ao Liceu Carnot, com um certo pesar,
já que as férias haviam acabado. Neste liceu, teve aulas
de Filosofia. Foi nesta época que Merleau-Ponty era professor
lá, mas você entrou numa turma em que não havia
Merleau-Ponty. Seu professor chamava-se Sr. Viale. Acho que era este o
nome, não?
GD: Sim, o Sr. Viale. Tenho dele uma lembrança comovida. Foi
por acaso. Houve a distribuição dos alunos... Eu poderia
ter tentado passar para a turma de Merleau-Ponty, mas não
tentei, não sei por quê. Viale foi... É curioso,
porque Halbwachs me fez sentir alguma coisa do que era a Literatura,
mas, desde as primeiras aulas de Filosofia, eu soube que
era isso que eu faria. Eu me lembro de coisas esparsas, aqui e ali. Em
Filosofia, eu me lembro de quando soubemos da chacina de Oradour. Tinha
acontecido naquela época. É bom lembrar que eu estava em
uma turma de pessoas um pouco politizadas, sensíveis às
questões nazistas. Eu estava na turma de Guy Moquet. Eu me
lembro disso. Havia uma atmosfera estranha nesta turma. De qualquer
forma, lembro da forma como foi anunciado Oradour. Foi um fato marcante
entre os rapazes de 17 anos... Não sei com que idade se passava
a prova final. Talvez, 17, 18 anos ou 16, 17 anos.
CP: Normalmente, 18 anos.
GD: Sim, me lembro bem. Quanto a Viale, era um professor que falava
baixo, já era velho. Eu gostava imensamente dele. De
Merleau-Ponty, tenho a lembrança da melancolia. Carnot era um
grande liceu no qual havia uma balaustrada ao longo de todo o primeiro
andar. E havia o olhar melancólico de Merleau-Ponty que
observava as crianças brincando e gritando. Uma grande
melancolia. Era como se ele dissesse: “O que estou fazendo
aqui?” Enquanto que Viale, de quem eu gostava muito, estava no
fim de sua carreira. Eu também me liguei muito a ele. Ficamos
muito ligados e, como morávamos perto um do outro,
voltávamos sempre juntos. Nós falávamos sem parar.
Sabia que eu faria Filosofia ou não faria nada.
CP: Logo nas primeiras aulas?
GD: Sim, sim! Foi como quando eu soube que existiam coisas
tão estranhas quanto o que chamavam de conceitos. Para mim, teve
o mesmo efeito do que para outros a descoberta de um personagem de
ficção. Como fiquei emocionado ao descobrir Monsieur de
Charlus! Ou um grande personagem de romance, ou Vautrin. Ou ainda
Eugénie Grandet. Quando eu aprendi o que Platão chamava
de “idéia”, me parecia ter vida! Era animado! Eu
sabia que era isso; que, para mim, era isso.
CP: E você logo se tornou bom aluno? O melhor?
GD: Sim. Aí, eu não tinha mais problemas escolares.
Desde Halbwachs, tornei-me bom aluno! Era bom em Letras. Até
mesmo em Latim, eu era bom. Eu era um bom aluno. Em Filosofia, um
ótimo aluno.
CP: Queria que voltássemos a uma coisa. As turmas não
eram politizadas naquela época? Você disse que a sua turma
era especial, pois havia Guy Moquet, etc.
GD: Não era possível ser politizado durante a guerra.
Certamente havia rapazes de 17, 18 anos que estavam na
Resistência. Mas quem estava na Resistência se calava, a
menos que fosse um cretino. Não se pode falar em
politização. Havia pessoas indiferentes e as
favoráveis ao governo de Vichy.
CP: Havia a Ação Francesa?
GD: Não era a Ação Francesa, era muito pior.
Eram os “Vichyssois”. Não há
comparação com a politização em
épocas de paz, já que os elementos realmente ativos eram
os resistentes ou jovens com alguma relação com a
Resistência. Não tinha nada a ver com
politização; era mais secreto.
CP: Mas, em sua turma, havia pessoas simpatizantes? Jovens que
simpatizavam com a Resistência?
GD: Sim, posso citar Guy Moquet, que foi morto. Acabou sendo
assassinado pelos nazistas um ano depois.
CP: Mas vocês falavam a esse respeito?
GD: Sim, claro. Como eu disse, o aviso, a comunicação
imediata de Oradour tinha a ver com comunicação secreta,
com o telégrafo, pois a notícia se espalhou e, no mesmo
dia, todas as escolas parisienses já sabiam. Saber imediatamente
do ocorrido em Oradour foi uma das coisas mais emocionantes para mim.
CP: Para fechar a infância, senão não
terminamos nunca, a sua parece ter tido pouca importância para
você. Você não fala dela e nem é uma
referência. Temos a impressão de que a infância
não é importante para você.
GD: Sim, claro. É quase em função de tudo o
que acabo de dizer. Acho que a atividade de escrever não tem
nada a ver com o problema pessoal de cada um. Não disse que
não se deve investir toda a sua alma. A literatura e o ato de
escrever têm a ver com a vida. Mas a vida é algo mais do
que pessoal. Na literatura, tudo o que traz algo da vida pessoal do
escritor é por natureza desagradável. É
lamentável, pois o impede de ver, sempre o remete para seu
pequeno caso particular. Minha infância nunca foi isso.
Não é que eu tenha horror a ela! Mas o que me importa, na
verdade, é como já dizíamos: “Há o
devir-animal que envolve o homem e o devir-criança”. Acho
que escrever é um devir alguma coisa. Mas também
não se escreve pelo simples ato de escrever. Acho que se escreve
porque algo da vida passa em nós. Qualquer coisa. Escreve-se
para a vida. É isso. Nós nos tornamos alguma coisa.
Escrever é devir. É devir o que bem entender, menos
escritor. É fazer tudo o que quiser, menos arquivo. Respeito o
arquivo em si. Neste caso, sim, quando é arquivo. Mas ele tem
interesse em relação a outra coisa. Se o arquivo existe
é justamente porque há uma outra coisa. E, através
do arquivo, pode se entender alguma coisinha desta outra coisa. Mas a
simples idéia de falar da minha infância —
não só porque ela não tem interesse algum —
me parece o contrário de toda a Literatura. Se me permite, vou
ler uma coisa que já li mil vezes e que todos os escritores
já disseram. Mas vi este livro ontem, eu não o conhecia.
É de um grande poeta russo, Mandelstam. Eu o estava lendo ontem.
CP: Ele tem um nome lindo, poderia dizê-lo.
GD: Sim, é Ossip. Nesta frase, ele diz... É o tipo de
frase que me transtorna. E o papel do professor é este:
comunicar e fazer com que crianças apreciem um texto. Foi o que
Halbwachs fez por mim. Ele diz que não entende que alguém
como Tolstoi se apaixone por arquivos familiares. Ele continua.
“Eu repito: a minha memória não é amor, mas
hostilidade. Ela trabalha não para reproduzir, mas para afastar
o passado. Para um intelectual de origem medíocre, a
memória é inútil. Basta-lhe falar dos livros que
leu e sua biografia está feita. Dentre as gerações
felizes, onde a epopéia fala através de hexâmetros
e crônicas, para mim, parece um sinal de pasmaceira. Entre mim e
o século, há um abismo, um fosso repleto de tempo
fremente. O que queria dizer a minha família? Eu não sei.
Era gaga de nascença e, no entanto, tinha algo a dizer. Sobre
mim e muitos dos meus contemporâneos, pesa a gagueira de
nascimento. Aprendemos não a falar, mas a balbuciar.
Foi só quando demos ouvidos ao barulho crescente do
século e fomos embranquecidos pela espuma de sua crista que
adquirimos
uma linguagem”. Para mim, isso quer dizer que... Quer dizer de
fato que escrever é mostrar a vida. É testemunhar em
favor da vida, dos idiotas que estão morrendo. É gaguejar
na língua. Fazer literatura apelando para a infância
é tornar a Literatura parte de seu caso particular. É
fazer literatura barata, são os
best-sellers. É
realmente uma porcaria. Se não se leva a linguagem até o
ponto em que se gagueja — o que não é fácil,
pois não basta gaguejar assim — , se não se vai
até este ponto. Na Literatura, de tanto forçar a
linguagem até o limite, há um devir animal da
própria linguagem e do escritor e também há um
devir criança, mas que não é a infância
dele. Ele se torna criança, mas não é a
infância dele, nem de mais ninguém. É a
infância do mundo. Os que se interessam pela sua própria
infância que se danem e que continuem a fazer a Literatura que
eles merecem. Se há alguém que não se interessa
por sua própria infância, este alguém é
Proust. A tarefa do escritor não é vasculhar os arquivos
familiares, não é se interessar por sua própria
infância. Ninguém se interessa por isso. Ninguém
digno de alguma coisa se interessa por sua infância. A tarefa
é outra: devir criança através do ato de escrever,
ir em direção à infância do mundo e
restaurar esta infância. Eis as tarefas da Literatura.
CP: E a criança nietzschiana?
GD: Nietzsche, entre outros, sabia disso, assim como Mandelstam
sabia. Todos os escritores sabem disso. Mas eu insisto. Não
consigo pensar em outra fórmula além desta: escrever
é devir, mas não é tornar-se escritor, nem um
memorialista. Nada disso. Não é porque vivi uma
história de amor que vou escrever um romance. É
horrível pensar assim. Não é apenas
medíocre, é horrível!
CP: Há uma exceção à regra: Nathalie
Sarraute, uma escritora fabulosa, escreveu um livro chamado
Infância.
Um momento de fraqueza?
GD: Absolutamente! Nathalie Sarraute é uma escritora
fabulosa, mas não é um livro sobre a infância dela.
É um livro no qual ela testemunha, reinventa...
CP: Banquei o advogado do diabo.
GD: Eu sei, mas é um papel muito perigoso. Ela inventa a
infância do mundo. O que interessa a N. Sarraute de sua
infância? São algumas fórmulas estereotipadas das
quais ela vai tirar maravilhas. Pode ser o que ela fez com as
últimas palavras de ... De quem mesmo?
CP: Tchekov.
GD: As últimas palavras de Tchekov. Ela tirou daí.
Depois, ela pega de novo uma menina que ouviu alguém dizer:
“Como vai?” e vai criar um mundo de linguagem, fazer
proliferar a linguagem. Claro que Nathalie Sarraute não se
interessa por sua própria infância!
CP: Tudo bem, mas mesmo assim...
GD: Claude Sarraute talvez se interesse, mas Nathalie Sarraute,
não.
CP: Claro, claro. Aceito tudo isso. Mas, de alguma forma, foi um
treinamento precoce que o levou à Literatura? Você
reprimiu a infância e a rejeitou como uma inimiga. Isso foi a
partir de que idade? É um treinamento? Por outro lado, a
infância sempre volta, mesmo que seja de uma forma revoltante.
É preciso treinar quase diariamente? Precisa ter uma disciplina
cotidiana?
GD: Isso simplesmente acontece, eu acho. A infância, a
infância... Como tudo, é preciso saber separar a
infância ruim da boa. O que é interessante? A
relação com o pai, a mãe e as lembranças da
infância não me parecem interessantes. É
interessante e rico para si próprio, mas não para
escrever. Há outros aspectos da infância. Falamos
há pouco do cavalo que morreu na rua, antes do surgimento do
carro. Encontrar a emoção da criança... Na
verdade, é “uma” criança. A criança
que “eu” fui não quer dizer nada. Mas eu não
sou apenas a criança que fui, eu fui “uma”
criança entre muitas outras. Eu fui “uma criança
qualquer”. E foi assim que eu vi o que era interessante e
não como “eu era a tal criança”. “Eu vi
um cavalo morrer na rua antes que surgissem os carros”.
Não estou falando por mim, mas por aqueles que viram. Muito bem,
muito bem... Perfeito. É uma tarefa do tornar-se escritor. Algum
fator fez com que Dostoiévski o visse. Há uma
página inteira em
Crime e castigo, eu acho, sobre o
cavalo que morre na rua. Nijinski, o dançarino, o viu. Nietzsche
também viu. Já estava velho quando o viu em Turim, eu
acho. Muito bem!
CP: E você viu as manifestações da Frente
Popular.
GD: Sim, eu vi estas manifestações, vi meu pai
dividido entre sua honestidade e seu anti-semitismo. Eu fui
“uma” criança. Eu sempre insisti no fato de que
não se entende o sentido do artigo indefinido. “Uma”
criança espancada, “um” cavalo chicoteado.
Não quer dizer “eu”. O artigo indefinido é de
uma extrema riqueza.
CP: São as multiplicidades. Falaremos disso.
GD: Sim, é a multiplicidade.
CP: F de Fidelidade. Fidelidade não gera amizade. Tudo isso
vem de um mistério muito maior. Com o Gordo e o Magro, e Bouvard
e Pecuchet. Vamos passar para a letra F.
GD: Vamos ao F.
CP: Escolhi a palavra Fidelidade. Fidelidade para
falar de amizade, já que há 30 anos, é amigo de
Jean-Pierre Braunberger. E todos os dias, vocês se telefonam ou
se vêem. É como um casal. Você é fiel
às suas amizades, é fiel a Félix Guattari, a
Jerôme Lindon, a Elie, a Jean-Paul Manganaro, Pierre Chevalier...
Seus amigos são muito importantes para você.
François Châtelet e Michel Foucault eram seus amigos e
você os homenageou como amigos com grande fidelidade. Queria
saber se a impressão de a fidelidade estar obrigatoriamente
ligada à amizade é correta? Ou será o
contrário?
GD: Não há Fidelidade. É
só uma questão de conveniência, já que
começa com F.
CP: Sim, e o A já foi preenchido.
GD: É outra coisa. A amizade. Por que se é amigo de
alguém? Para mim, é uma questão de
percepção. É o fato de... Não o fato de ter
idéias em comum. O que quer dizer “ter coisas em comum com
alguém”? Vou dizer banalidades, mas é se entender
sem precisar explicar. Não é a partir de idéias em
comum, mas de uma linguagem em comum, ou de uma pré-linguagem em
comum. Há pessoas sobre as quais posso afirmar que não
entendo nada do que dizem,
mesmo coisas simples como: “Passe-me o sal”. Não
consigo entender. E há pessoas que me falam de um assunto
totalmente abstrato, sobre o qual posso não concordar, mas
entendo
tudo o que dizem. Quer dizer que tenho algo a dizer-lhes e elas a mim.
E não é pela comunhão de idéias. Há
um mistério aí. Há uma base indeterminada...
É verdade que há um grande mistério no fato de se
ter
algo a dizer a alguém, de se entender mesmo sem comunhão
de idéias, sem que se precise estar sempre voltando ao assunto.
Tenho uma hipótese: cada um de nós está apto a
entender um determinado tipo de charme. Ninguém consegue
entender todos os tipos ao mesmo tempo. Há uma
percepção do charme. Quando falo de charme não
quero supor absolutamente nada de homossexualidade dentro da amizade.
Nada disso. Mas um gesto, um pensamento de alguém, mesmo antes
que este seja significante, um pudor de alguém são fontes
de charme que têm tanto a ver com a vida, que vão
até as raízes vitais que é assim que se torna
amigo de alguém. Vejamos o exemplo de frases! Há frases
que só podem ser ditas se a pessoa que as diz for muito vulgar
ou abjeta. Seria preciso pensar em exemplos e não temos tempo.
Mas cada um de nós, ao ouvir uma frase deste nível,
pensa: “O que acabei de ouvir? Que imundicie é
essa?”
Não pense que pode soltar uma frase destas e tentar voltar
atrás, não dá mais. O contrário
também vale para o charme. Há frases insignificantes que
têm tanto charme e mostram tanta delicadeza que, imediatamente,
você acha que aquela pessoa é sua, não no sentido
de propriedade, mas é sua e você espera ser dela. Neste
momento nasce
a amizade. Há de fato uma questão de
percepção. Perceber algo que lhe convém, que
ensina, que abre e revela alguma coisa.
CP: Decifrar signos.
GD: Exatamente. Disse muito bem. É só o que
há. Alguém emite signos e a gente os recebe ou
não. Acho que todas as amizades têm esta base: ser
sensível aos signos emitidos por alguém. A partir
daí, pode-se passar horas com alguém sem dizer uma
palavra ou, de preferência, dizendo coisas totalmente
insignificantes. Em geral, dizendo coisas... A amizade é
cômica.
CP: Você gosta muito dos cômicos, das duplas de amigos,
como Bouvard e Pecuchet, Mercier e Camier...
GD: Sim, Jean-Pierre e eu somos uma pálida
reprodução de Mercier e Camier. Eu estou sempre cansado,
não tenho boa saúde, Jean-Pierre é
hipocondríaco e nossas conversas são do tipo de Mercier e
Camier. Um diz ao outro: “Como está?” O outro
responde: “Uma bela viola, sem muito bolor”. É uma
frase cheia de charme. Tem de gostar de quem a diz. Ou: “Estou
como uma rolha no balanço do mar”. São boas frases.
Com Félix é diferente, não somos Mercier e Camier,
estamos mais próximos de Bouvard e Pécuchet. Com tudo o
que fizemos juntos, mergulhamos em uma tentativa enciclopédica.
E dizemos coisas como: “Temos a mesma marca de
chapéu!” E volta a tentativa enciclopédica, a de
fazer um livro que aborde todos os saberes. Com outro amigo, poderia
ser uma réplica de o Gordo e o Magro. Não é que se
deva imitar estas grandes duplas, mas amizade é isso. Os grandes
amigos são Bouvard e Pécuchet, Camier e Mercier, o Gordo
e o Magro, mesmo que estes tenham brigado. Pouco importa. Na
questão da amizade, há uma espécie de
mistério. Isso diz respeito direto à Filosofia. Porque na
palavra “filosofia” existe a palavra “amigo”.
Quero dizer que o filósofo não é um sábio.
Do contrário, seria cômico. Ao pé da letra,
é o “amigo da sabedoria”. O que os gregos inventaram
não foi a sabedoria, mas a estranha idéia de “amigo
da sabedoria”. Afinal, o que quer dizer “amigo da
sabedoria”? Esse é que é o problema. O que é
a filosofia e o que pode ser amigo da sabedoria? Quer dizer que o amigo
da sabedoria não é sábio. Há uma
interpretação óbvia que é: “Ele tende
à sabedoria”. Não é por aí. O que
inscreve a amizade na filosofia e que tipo de amizade? Há alguma
relação com um amigo? O que era para os gregos? O que
quer dizer “amigo de”? Se interpretamos “amigo”
como aquele que “tende a”, amigo é aquele que
pretende ser
sábio sem ser sábio. Mas o que quer dizer
“pretender ser sábio”? Quer dizer que há
outro. Nunca se é o único pretendente. Se há um
pretendente, é porque há outros, quer dizer que a
moça tem vários pretendentes.
CP: Não se é o prometido da sabedoria, é-se
apenas um pretendente.
GD: Exatamente. Então, há pretendentes. E o que os
gregos inventaram? Na minha opinião, na
civilização grega, eles inventaram o fenômeno dos
pretendentes. Quer dizer que eles inventaram a idéia de que
havia uma rivalidade entre os homens livres em todas as áreas.
Não havia esta idéia de rivalidade entre homens livres,
só na Grécia. A eloqüência. É por isso
que são tão burocráticos. É a rivalidade
entre os homens livres. Então, eles se processam mutuamente, os
amigos também. O rapaz ou a moça tem pretendentes. Os
pretendentes de Penélope. Este é o fenômeno grego
por excelência. Para mim, o fenômeno grego é a
rivalidade dos homens livres. Isso explica “amigo” na
Filosofia. Eles pretendem, há uma rivalidade em
direção a alguma coisa. A quê? Podemos
interpretar, tendo em vista a história da Filosofia. Para
alguns, a Filosofia está ligada ao mistério da amizade.
Para outros, está ligada ao mistério do noivado. E talvez
seja por aí.
Les fiançailles rompues [O
noivado
rompido], Kierkegaard. Não há Filosofia sem este
texto, sem o primeiro amor. Mas como já dissemos, o primeiro
amor
é a repetição do último, talvez seja o
último amor. Talvez o casal tenha uma importância na
Filosofia. Acho que só saberemos o que é a Filosofia
quando forem resolvidas as questões da noiva, do amigo, do que
é o amigo, etc... É isso que me parece interessante.
CP: E Blanchot na amizade? Havia uma idéia de...
GD: Blanchot e Mascolo são os dois homens atuais que, em
relação à Filosofia, dão importância
à amizade. Mas num sentido muito especial. Eles não dizem
que é preciso ter um amigo para ser filósofo; eles
consideram que a amizade é uma categoria ou uma
condição do exercício do pensamento. É isso
que importa. Não é o amigo em si, mas a amizade como
categoria, como condição para pensar. Daí, a
relação Mascolo-Antelme, por exemplo. Daí, as
declarações de Blanchot sobre a amizade. Eu tenho a
idéia de que... Eu adoro desconfiar do amigo. Para mim, amizade
é desconfiança. Há um verso de que gosto muito, e
me impressiona muito, de um poeta alemão, sobre a hora entre
cão e lobo, a hora na qual ele se define. É a hora na
qual devemos desconfiar do amigo. Há uma hora em que se deve
desconfiar até de um amigo. Eu desconfio do Jean-Pierre como da
peste! Desconfio dos meus amigos. Mas é com tanta alegria que
não podem me fazer mal algum. O que quer que façam, vou
achar muita graça. Há muito entendimento e
comunhão entre meus amigos. Com a noiva é a mesma coisa.
Com tudo. Mão não se deve achar que sejam acontecimentos
ou casos particulares. Quando se fala de “amizade”,
“noiva perdida”, trata-se de saber em que
condições o pensamento pode ser exercido? Por exemplo,
Proust considera que a amizade é zero! Não só por
conta própria, mas porque não há nada a se pensar
na amizade. Mas pode se pensar sobre o amor ciumento. Esta é a
condição do pensamento.
CP: Quero fazer-lhe a última pergunta sobre seus amigos. Com
Châtelet, foi outra coisa. Mas você foi amigo de Foucault
no final da guerra e estudaram juntos. Mas vocês tinham uma
amizade que não era a de uma dupla, como a que tem com
Jean-Pierre ou Félix ou com Elie, Jerôme, já que
estamos falando dos outros. Vocês tinham uma amizade muito
profunda, mas parecia distante e era mais formal para quem via de fora.
Que amizade era essa, então?
GD: Ele era mais misterioso para mim e talvez porque a gente
tivesse se conhecido tarde. Foucault foi um grande arrependimento para
mim. Como tinha muito respeito por ele, não tentei... Vou dizer
como eu o percebia. É um dos raros homens que, quando entrava em
uma sala, mudava toda a atmosfera. Foucault não era apenas uma
pessoa, aliás, nenhum de nós é apenas uma pessoa.
Era como se outro ar entrasse. Era uma corrente de ar especial. E as
coisas mudavam. Era um fator atmosférico. Foucault tinha como
que uma emanação. Como uma emissão de raios.
Alguma coisa assim. Fora isso, ele responde ao que eu dizia há
pouco, sobre não haver necessidade de falar com o amigo.
Só falávamos de coisas que nos faziam rir. Ser amigo
é ver a pessoa e pensar: “O que vai nos fazer rir
hoje?”. “O que nos faz rir no meio de todas essas
catástrofes?” É isso. Mas para mim, Foucault
é a lembrança de alguém que ilustra o que eu dizia
sobre o charme de alguém, um gesto... Os gestos de Foucault eram
impressionantes. Tantos gestos... Pareciam gestos metálicos,
gestos de madeira
seca. Eram gestos estranhos, fascinantes. Muito bonitos. As pessoas
só têm charme em sua loucura, eis o que é
difícil de ser entendido. O verdadeiro charme das pessoas
é aquele em que elas perdem as estribeiras, é quando elas
não sabem muito bem em que ponto estão. Não que
elas desmoronem, pois são pessoas que não desmoronam.
Mas, se não captar aquela pequena raiz, o pequeno grão de
loucura da pessoa, não se pode amá-la. Não pode
amá-la. É aquele lado em que a pessoa está
completamente... Aliás, todos nós somos um pouco
dementes. Se não se captar o ponto de demência de
alguém... Ele pode assustar, mas, quanto a mim, fico feliz de
constatar
que o ponto de demência de alguém é a fonte de seu
charme.
Ao G, pois!
CP: G! Neste caso, não é o ponto de demência
que constitui seu charme e sim algo muito sério: o fato de
pertencer à esquerda. Isso o faz rir, o que me deixa muito
feliz. Como já vimos, você é de uma família
burguesa de direita e, a partir do final da guerra, você se
tornou o que se costuma chamar de um homem de esquerda. Com a
Liberação, muitos amigos seus e estudantes de Filosofia
aderiram ou eram muito ligados ao Partido Comunista.
GD: Sim, todos passaram pelo PC, menos eu. Pelo menos é o
que eu acho, não tenho certeza.
CP: Mas como você escapou disso?
GD: Não é nada complicado. Todos os meus amigos
passaram pelo PC. O que me impediu? Acho que é porque eu era
muito trabalhador. E porque eu não gostava das reuniões.
Nunca suportei as reuniões em que falam de forma
interminável. Ser membro do PC era participar destas
reuniões o tempo todo. E era a época do “Apelo de
Estocolmo”. Pessoas cheias de talento passavam o dia colhendo
assinaturas para o “Apelo de Estocolmo”. Andavam pelas ruas
com este “Apelo de Estocolmo”, que já nem sei mais o
que era. Mas isso ocupou toda uma geração de comunistas.
Eu tinha problemas porque conhecia muitos historiadores comunistas
cheios de talento e achava que se eles fizessem a tese deles seria
muito mais importante para o partido, que, pelo menos, teria um
trabalho a mostrar em vez de usá-los para o “Apelo de
Estocolmo”, um abaixo-assinado sobre a paz ou sei lá o
quê. Não tinha vontade de participar disso. E, como eu
falava pouco e era tímido, pedir uma assinatura para o
“Apelo de Estocolmo” teria me colocado num estado de
pânico tal que ninguém assinaria nada. Ainda por cima,
tinha-se de vender o jornal
L’Humanité. Tudo por
motivos muito baixos. Não tive vontade nenhuma de entrar para o
partido.
CP: Sentia-se próximo do engajamento deles?
GD: Do partido? Não, isso não me dizia respeito. E
foi o que me salvou. Todas aquelas discussões sobre Stalin... O
que hoje todo mundo já sabe sobre os horrores de Stalin, sempre
existiu. Que as revoluções acabem mal... Acho muita
graça! Afinal, de quem estão zombando? Quando os
Novos Filósofos descobriram
que as
revoluções acabam mal... Tem de ser maluco! Descobriram
isso com Stalin! Foi uma porta aberta para que todo mundo descobrisse.
Por exemplo, sobre a revolução argelina disseram que ela
fracassou porque atiraram em estudantes. Mas quem pode acreditar
que uma revolução possa ser bem-sucedida? Dizem que os
ingleses
nunca fizeram uma revolução. Estão enganados!
Atualmente, vive-se uma mistificação incrível! Os
ingleses fizeram uma revolução, mataram o rei e o que
eles tiveram? Cromwell! E o que é o romantismo inglês? Uma
longa meditação sobre o fracasso da
revolução. Eles não esperaram Glucksman para
pensar sobre o fracasso da revolução stalinista. Eles o
tinham ali! E os americanos, dos quais nunca se fala? Eles fracassaram
em sua revolução muito mais do que os bolcheviques! Os
americanos, antes da Guerra da Independência... Eu repito: antes
da Guerra da Independência, eles se apresentavam como melhores do
que uma nova nação! Eles ultrapassaram as
nações, exatamente como Marx disse do proletário.
Acabaram-se as nações! Eles trouxeram a nova
população, fizeram a verdadeira revolução,
e, exatamente como os marxistas contaram com a
proletarização universal, os americanos contavam com a
imigração universal. São as duas fases das lutas
de classe. É absolutamente revolucionário! É a
América de Jefferson, de Thoreau, de Melville! Jefferson,
Thoreau, Melville representam uma América completamente
revolucionária, que anuncia o novo homem, exatamente como a
revolução bolchevique anunciava o novo homem! E ela
fracassou! Todas as revoluções fracassaram, isso é
sabido! Hoje, fingem redescobrir isso. É loucura! E nisso todo
mundo se atola; é o revisionismo atual. Furet descobre que a
revolução francesa não foi tão boa assim.
Ela também fracassou e todos sabem disso! A
revolução francesa nos deu Napoleão. São
descobertas que não comovem por sua novidade. A
revolução inglesa deu em Cromwell. A
revolução americana deu em quê? Muito pior,
não?
CP: O liberalismo.
GD: Deu em Reagan! Não me parece muito melhor do que os
outros! Atualmente, estamos em um estado de grande confusão.
Mesmo que as revoluções tenham fracassado, isso
não impediu que as pessoas deviessem revolucionárias.
Duas coisas absolutamente diferentes são misturadas. Há
situações nas quais a única saída para o
homem é devir revolucionário. É o que
falávamos sobre a confusão do devir e da História.
É essa a confusão dos historiadores. Eles nos falam do
futuro da revolução ou das revoluções. Mas
esta não é a questão. Eles podem ir lá para
trás para mostrar que se o futuro é ruim é porque
o ruim já existia desde o início. Mas o problema concreto
é: como e por que as pessoas devêm revolucionárias?
Felizmente, os historiadores não puderam impedir isso. Os
sul-africanos estão envolvidos em um devir
revolucionário. Os palestinos também. Se me disserem
depois: “Você vai ver quando eles triunfarem, quando eles
vencerem...!” “Vai acabar mal”. Mas já
não são mais os mesmos tipos de problemas, vai se criar
uma nova situação e novos devires revolucionários
serão desencadeados. Nas situações de tirania, de
opressão, cabe aos homens devirem revolucionários, pois
não há outra coisa a ser feita. Quando nos dizem:
“Viu como deu errado?”, não estamos falando da mesma
coisa. É como se falássemos idiomas completamente
diferentes. O futuro da História e o devir das pessoas
não são a mesma coisa.
CP: E o respeito aos Direitos Humanos que está tão em
voga hoje em dia? É o contrário do devir
revolucionário, não?
GD: A respeito dos Direitos Humanos, tenho vontade de dizer um
monte de coisas feias. Isso tudo faz parte deste pensamento molenga
daquele período pobre de que falamos. É puramente
abstrato. O que quer dizer “Direitos Humanos”? É
totalmente vazio. É exatamente o que estava tentando dizer
há pouco sobre o desejo. O desejo não consiste em erguer
um objeto e dizer: “Eu desejo isto”. Não se deseja a
liberdade. Isso não tem valor algum. Existem determinadas
situações como, por exemplo, a da Armênia. É
um exemplo bem diferente. Qual é a situação por
lá? Corrijam-me se estiver errado, mas não mudará
muita coisa. Há este enclave em outra república
soviética, este enclave armênio. Uma República
Armênia. Esta é a situação. Primeira coisa.
Há o massacre. Aqueles turcos ou sei lá o quê...
CP: Os Azeris.
GD: Pelo que se sabe atualmente, suponho que seja isso: o massacre
dos armênios mais uma vez no enclave. Os armênios se
refugiam em sua República. Corrija-me se estiver errado. E
aí, ocorre um terremoto. Parece uma história do
Marquês de Sade. Esses pobres homens passaram pelas piores
provas, vindas dos próprios homens e, mal chegam a um local
protegido, é a vez da natureza entrar em ação. E
aí, vêm me falar de Direitos Humanos. É conversa
para intelectuais odiosos, intelectuais sem idéia. Notem que
essas Declarações dos Direitos Humanos não
são feitas pelas pessoas diretamente envolvidas: as sociedades e
comunidades armênias. Pois para elas não se trata de um
problema de Direitos Humanos. Qual é o problema? Eis um caso de
agenciamento. O desejo se faz sempre através de um agenciamento.
O que se pode fazer para eliminar este enclave ou para que se possa
viver neste enclave? É uma questão de território.
Não tem nada a ver com Direitos Humanos, e sim com
organização de território. Suponho que Gorbatchev
tente safar-se desta situação. Como ele vai fazer para
que este enclave armênio não seja entregue aos turcos que
o cercam? Não é uma questão de Direitos Humanos,
nem de justiça, e sim de jurisprudência. Todas as
abominações que o homem sofreu são casos e
não desmentidos de direitos abstratos. São casos
abomináveis. Pode haver casos que se assemelhem, mas é
uma questão de jurisprudência. O problema armênio
é um problema típico de jurisprudência
extraordinariamente complexo. O que fazer para salvar os armênios
e para que eles próprios se salvem desta situação
louca em que, ainda por cima, ocorre um terremoto? Terremoto este que
também tem seus motivos: construções
precárias, feitas de forma incorreta. Todos são casos de
jurisprudência. Agir pela liberdade e tornar-se
revolucionário é operar na área da
jurisprudência! A justiça não existe! Direitos
Humanos não existem! O que importa é a
jurisprudência. Esta é a invenção do
Direito. Aqueles que se contentam em lembrar e recitar os Direitos
Humanos são uns débeis mentais! Trata-se de criar,
não de se fazer aplicar os Direitos Humanos. Trata-se de
inventar as jurisprudências em que, para cada caso, tal coisa
não será mais possível. É muito diferente.
Vou dar um exemplo de que gosto muito, pois é o único
meio de fazer com que se entenda o que é a jurisprudência.
As pessoas não entendem nada! Nem todas... Eu me lembro da
época em que foi proibido fumar nos táxis. Antes, se
fumava nos táxis. Até que foi proibido. Os primeiros
motoristas de táxi que proibiram que se fumasse no carro
causaram um escândalo, pois havia motoristas fumantes. Eles
reclamaram. E um advogado... Eu sempre fui um apaixonado pela
jurisprudência. Se não tivesse feito Filosofia, teria
feito Direito. Mas não Direitos Humanos. Teria feito
jurisprudência, porque é a vida! Não há
Direitos Humanos, há direitos da vida. Muitas vezes, a vida se
vê caso a caso. Mas eu estava falando dos táxis. Um
sujeito não queria ser proibido de fumar em um táxi e
processa os táxis. Eu me lembro bem, pois li os considerandos do
julgamento. O táxi foi condenado. Hoje em dia, nem pensar!
Diante do mesmo processo, o cara é que seria condenado. Mas, no
início, o táxi foi condenado sob o seguinte considerando:
quando alguém pega um táxi, ele se torna
locatário. O usuário do táxi é comparado a
um locatário que tem o direito de fumar em sua casa, direito de
uso e abuso. É como se eu alugasse um apartamento e a
proprietária me proibisse de fumar em minha casa. Se sou
locatário, posso fumar em casa. O táxi foi assimilado a
uma casa sobre rodas da qual o passageiro era o locatário. Dez
anos depois, isso se universalizou. Quase não há
táxi em que se possa fumar. O táxi não é
mais assimilado a uma locação de apartamento, e sim a um
serviço público. Em um serviço público,
pode-se proibir de fumar. A Lei Veil. Tudo isso é
jurisprudência. Não se trata de direito disso ou daquilo,
mas de situações que evoluem. E lutar pela liberdade
é realmente fazer jurisprudência. O exemplo da
Armênia me parece típico. Os Direitos Humanos... Ao
invocá-los, quer dizer que os turcos não têm o
direito de massacrar os armênios. Sim, não podem. E
aí? O que se faz com esta constatação? São
um bando de retardados. Ou devem ser um bando de hipócritas.
Este pensamento dos Direitos Humanos é filosoficamente nulo. A
criação do Direito não são os Direitos
Humanos. A única coisa que existe é a
jurisprudência. Portanto, é lutar pela
jurisprudência.
CP: Quero voltar a uma coisa...
GD: Ser de esquerda é isso. Eu acho que é criar o
direito. Criar o direito.
CP: Voltamos à pergunta sobre a filosofia dos Direitos
Humanos. Este respeito pelos Direitos Humanos é uma
negação de Maio de 1968 e uma negação do
Marxismo. Você não repudiou Marx, pois não foi
comunista e ainda o tem como referência. E você foi uma das
raras pessoas a evocar Maio de 68 sem dizer que foi uma mera
bagunça. O mundo mudou. Gostaria que falasse mais sobre Maio
de 68.
GD: Sim! Mas foi dura ao dizer que fui um dos raros, pois há
muita gente. Basta olhar à nossa volta, entre nossos amigos,
ninguém renegou 68.
CP: Sim, mas são nossos amigos.
GD: Mesmo assim, há muita gente. São muitos os que
não rejeitaram Maio de 68. Mas a resposta é simples. Maio
de 68 é a intrusão do devir. Quiseram atribuir este fato
ao reino do imaginário. Não é nada
imaginário, é uma baforada de realidade em seu estado
mais puro. De repente, chega a realidade. E as pessoas não
entenderam e perguntavam: “O que é isso?”
Finalmente, gente real. As pessoas em sua realidade. Foi prodigioso! O
que eram as pessoas em sua realidade? Era o devir. Podia haver alguns
devires ruins. É claro que alguns historiadores não
entenderam bem, pois acredito tanto na diferença entre
História e devir. Foi um devir revolucionário, sem futuro
de revolução. Alguns podem zombar disso. Ou zombam depois
que passou. O que tomou as pessoas foram fenômenos de puro devir.
Mesmo os devires-animal, mesmo os devires-criança, mesmo os
devires-mulher dos homens, mesmo os devires-homem das mulheres... Tudo
isso faz parte de uma área tão particular na qual estamos
desde o início de nossas questões. O que é
exatamente um devir? É a intrusão do devir em Maio de
1968.
CP: Você teve um devir-revolucionário naquele momento?
GD: O seu sorriso parece mostrar bem a sua ironia... Prefiro que me
pergunte o que é ser de esquerda. É mais discreto do que
devir-revolucionário.
CP: Então, vou perguntar de outra forma. Entre seu civismo
de homem de esquerda e seu devir-revolucionário, como você
faz? O que é ser de esquerda para você?
GD: Vou lhe dizer. Acho que não existe governo de esquerda.
Não se espantem com isso. O governo francês, que deveria
ser de esquerda, não é um governo de esquerda. Não
é que não existam diferenças nos governos. O que
pode existir é um governo favorável a algumas
exigências da esquerda. Mas não existe governo de
esquerda, pois a esquerda não tem nada a ver com governo. Se me
pedissem para definir o que é ser de esquerda ou definir a
esquerda, eu o faria de duas formas. Primeiro, é uma
questão de percepção. A questão de
percepção é a seguinte: o que é não
ser de esquerda? Não ser de esquerda é como um
endereço postal. Parte-se primeiro de si próprio, depois
vem a rua em que se está, depois a cidade, o país, os
outros países e, assim, cada vez mais longe. Começa-se
por si mesmo e, na medida em que se é privilegiado, em que se
vive em um país rico, costuma-se pensar em como fazer para que
esta situação perdure. Sabe-se que há perigos, que
isso não vai durar e que é muita loucura. Como fazer para
que isso dure? As pessoas pensam: “Os chineses estão
longe, mas como fazer para que a Europa dure ainda mais?” E ser
de esquerda é o contrário. É perceber... Dizem que
os japoneses percebem assim. Não vêem como nós.
Percebem de outra forma. Primeiro, eles percebem o contorno.
Começam pelo mundo, depois, o continente... europeu, por
exemplo... depois a França, até chegarmos à Rue de
Bizerte e a mim. É um fenômeno de percepção.
Primeiro, percebe-se o horizonte.
CP: Mas os japoneses não são um povo de esquerda...
GD: Mas isso não importa. Estão à esquerda em
seu endereço postal. Estão à esquerda. Primeiro,
vê-se o horizonte e sabe-se que não pode durar, não
é possível que milhares de pessoas morram de fome. Isso
não pode mais durar. Não é possível esta
injustiça absoluta. Não em nome da moral, mas em nome da
própria percepção. Ser de esquerda é
começar pela ponta. Começar pela ponta e considerar que
estes problemas devem ser resolvidos. Não é simplesmente
achar que a natalidade deve ser reduzida, pois é uma maneira de
preservar os privilégios europeus. Deve-se encontrar os
arranjos, os agenciamentos mundiais que farão com que o Terceiro
Mundo... Ser de esquerda é saber que os problemas do Terceiro
Mundo estão mais próximos de nós do que os de
nosso bairro. É de fato uma questão de
percepção. Não tem nada a ver com a boa alma. Para
mim, ser de esquerda é isso. E, segundo, ser de esquerda
é ser, ou melhor, é devir-minoria, pois é sempre
uma questão de devir. Não parar de
devir-minoritário. A esquerda nunca é maioria enquanto
esquerda
por uma razão muito simples: a maioria é algo que
supõe – até quando se vota, não se trata
apenas da maior quantidade que vota em favor de determinada coisa
– a existência de
um padrão. No Ocidente, o padrão de qualquer maioria
é: homem, adulto, macho, cidadão. Ezra Pound e Joyce
disseram coisas assim. O padrão é esse. Portanto,
irá obter a maioria aquele que, em determinado momento, realizar
este padrão. Ou seja, a imagem sensata do homem adulto, macho,
cidadão. Mas posso dizer que a maioria nunca é
ninguém. É um padrão vazio. Só que muitas
pessoas se reconhecem neste padrão vazio. Mas, em si, o
padrão é vazio. O homem macho, etc. As mulheres
vão contar e intervir nesta maioria ou em minorias
secundárias a partir de seu grupo relacionado a este
padrão. Mas, ao lado disso, o que há? Há todos os
devires que são minoria. As mulheres não adquiriram o ser
mulher por natureza. Elas têm um devir-mulher. Se elas têm
um devir mulher, os homens também o têm. Falamos do
devir-animal. As crianças também têm um
devir-criança. Não são crianças por
natureza.
Todos os devires são minoritários.
CP: Só os homens não têm devir homem.
GD: Não, pois é um padrão majoritário.
É vazio. O homem macho, adulto não tem devir. Pode devir
mulher e vira minoria. A esquerda é o conjunto dos processos de
devir minoritário. Eu afirmo: a maioria é ninguém
e a minoria é todo mundo. Ser de esquerda é isso: saber
que a minoria é todo mundo e que é aí que acontece
o fenômeno do devir. É por isso que todos os pensadores
tiveram dúvidas em relação à democracia,
dúvidas sobre o que chamamos de eleições. Mas
são coisas bem conhecidas.