Marketplace ItemWanted: Pare de fazer capitalismoApr 5, '05 12:18 PM
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Pare de fazer capitalismo por John Holloway
Segunda-feira, 7 de março de 2005

1. Nós temos diferentes perspectivas políticas, nós temos idéias diferentes sobre a ação política e organização e talvez também sobre o tipo de sociedade que gostaríamos de criar. O quê nós temos em comum? NÃO. Nosso NÃO à sociedade existente. Isso não é pequeno ou insignificante. Nosso NÃO é uma raiva, uma fúria, uma profunda convicção que nos une. NÃO ao neo-liberalismo, NÃO ao capitalismo, NÃO à guerra, NÃO à destruição da humanidade. Nosso NÃO deve ser o ponto de partida para pensar em alianças.

2. Este é um NÃO muito urgente. Nós somos como roedores correndo em direção ao abismo. A humanidade está em uma estrada que leva diretamente a sua própria autodestruição. A auto-aniquilação da humanidade torna-se uma possibilidade mais real a cada dia: pela guerra, pela destruição do meio ambiente, pela miséria, pobreza, doença, fome e violência criadas pelo neoliberalismo. A única possibilidade é dizer NÃO, recusar: “Não, nós não seguiremos esta estrada para nossa autodestruição”. Não que “devamos ir com mais cuidado, ou mais devagar, ou que devêssemos dirigir à esquerda ao invés da direita”, mas simplesmente NÃO.

3. NÃO também é o segredo de nosso poder. Aqueles que governam sempre dependem daqueles que são governados. Os capitalistas não podem lucrar sem seus trabalhadores, os generais não podem guerrear sem seus soldados, os presidentes e os primeiros ministros não podem governar sem seus governados. Se o servo diz não ao mestre, então o servo não é mais servo e o mestre não é mais mestre: ambos começam a tornar-se humanos. Se os soldados dizem não aos seus generais, então os soldados não são mais soldados e os generais não são mais generais. Se os trabalhadores dizem não aos seus chefes capitalistas, então os trabalhadores não são mais trabalhadores e os capitalistas não mais capitalistas. Todos as pessoas que querem nos comandar, que querem nos dizer o que fazer, se dariam conta de que dependem de nós, e não ao contrário. Nós somos mais fortes do que pensamos.

4. Então, em primeiro lugar, NÃO: greve, motim, boicote, desobediência, recusa. NÃO é o que temos em comum, NÃO é urgente, NÃO é a fonte da nossa força.

5. Nós fazemos o capitalismo. Se o capitalismo existe hoje, não é porque foi criado nos séculos XVIII ou XIX, mas porque foi criado hoje, porque nós o criamos hoje. Se nós não o criarmos amanhã, ele não existirá amanhã. Nós freqüentemente temos a tendência de culpá-los - os imperialistas, os [norte-]americanos, Bush, os capitalistas - mas, quando nós os culpamos, colocamos a nós mesmos no papel de vítimas, e, se somos vítimas, não temos esperanças de mudar as coisas: temos que pedir que alguém as mude por nós. Mas não são eles que criam o capitalismo, somos nós. E se temos o poder de criá-lo, então temos o poder de parar de criá-lo. Somente quando reconhecermos nossa responsabilidade, poderemos reconhecer nossa força.

6. A questão da revolução então não é “como destruímos o capitalismo” mas “como paramos de criar o capitalismo”. Isto não resolve os problemas, mas nos dá uma forma diferente para pensar em mudar o mundo.
* * *
Em primeiro lugar, isto muda o tempo. Não pode ser uma questão de construir uma revolução no futuro (construindo alianças), mas de ação aqui e agora para quebrar o capitalismo, para parar de criá-lo agora.
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Em segundo lugar, foca nossa atenção na recusa. Não há tempo a perder. Precisamos recusar e fazer tudo o que for possível para que nossas recusas sejam efetivas. Toda nossa história é uma história de recusas - de greves, de motins, de boicotes, de recusas a pagar dívidas, de abandonar aqueles que tentam nos comandar. Com muita freqüência estas recusas têm sido usadas simplesmente como um meio de negociar aceitação em melhores condições - greve por maiores salários, por exemplo - mas nem sempre. Os últimos anos têm visto uma série de ações para vetar o desenvolvimento, muitos com sucesso e muitos em grande escala (Bolívia em outubro de 2003, por exemplo). Como nós tornamos estas recusas mais efetivas, como nós recusamos não para negociar outras condições mas para parar a corrida rumo à destruição da humanidade?
* * *
Em terceiro lugar, nós não vivemos em mundo em que há uma grande recusa. Ao invés disso, há milhões de recusas, milhões de pessoas dizem ou gritam NÃO todos os dias, que dizem: NÃO, nós não permitiremos que o capital determine nossas vidas, nós devemos dar às nossas vidas a forma que consideramos necessária ou desejável. Às vezes estas recusas são tão pequenas que mesmo aqueles envolvidos não as percebem como recusas, mas freqüentemente elas são projetos coletivos, buscando uma alternativa e são tão grandes quanto a selva lacandona ou o argentinaço de três anos atrás ou a revolta na Bolívia. Estas recusas podem ser vistas como fissuras, como rachaduras no sistema de dominação capitalista. O capitalismo não é (em primeiro lugar) um sistema econômico, mas um sistema de comando. Os capitalistas, pelo dinheiro, nos comandam, dizendo o que devemos fazer. Recusar-se a a obedecer é quebrar o comando do capital. A questão para nós, então, é como nós podemos multiplicar e expandir estas recusas, estas rachaduras na textura da dominação?
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Revolução, em outras palavras, é necessariamente intersticial, isto é, a expansão de rachaduras e vãos na estrutura da dominação capitalista. Cada uma destas rachaduras é inicialmente um espaço de recusa mas também é um lugar de criação, um lugar no qual desenvolvemos nosso próprio poder-para-fazer e nosso próprio caminho à autodeterminação. Os NÃOs contêm SIMs, muitos SIMs diferentes, rumando experimentalmente em diferentes direções. Prefiguração, não pensamento essencialista. A estrela utópica de uma sociedade diferente existe para todos nós, claro, mas nós temos muitas formas diferentes de vê-la e de tentar alcançá-la. Tentar canalizar estas buscas em uma direção seria violentá-las. Nós devemos discutir e criticar, sem dúvida, mas é importante que o mundo que queremos criar seja um mundo que contenha muitos mundos diferentes.
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Se quisermos falar de alianças e de cooperação, é no negativo que devemos nos concentrar, na nossa recusa, na organização prática de como podemos parar: parar Bush, parar a guerra, parar a destruição do meio ambiente, em resumo, parar de fazer capitalismo agora. Pare de fazer capitalismo e, no mesmo processo, faça outro mundo, um mundo de muitos mundos.
Este texto foi apresentado no FSM em Porto Alegre - 2005.
* * *

Tradução: Rogério Barcelos Alves - Revisão: Adriana Selau Gonzaga e Leonardo Retamoso Palma (Abr/2005)


gusdurden wrote on May 19, '05
Das coisas mais rasas que eu já li na minha vida.

Isso só pode ser uma piada.
desobediente wrote on May 20, '05
Piada? Também é. Sim, o passo pós-burgues é divertido também, como todo gesto liberador. Sim, a alegria é ingovernável. Sim, a insubordinação tem gracejo, um jeito divertido de ir resistindo e teimando na afirmação da felicidade, alí onde tudo poderia fazer crer que ela é impossível e impensável. Uma piada inquietante. Incomodativa para quem prefere que essa piada não passe de piada.
Mas o principal: trata-se de gesto e jeito irredutíveis, múltiplos, infinitos. Viver é bem mais que meramente existir, por isso, resistência é re-existência: teimosa afirmação da vida, irredutível potência de fazer mundos, algo comum. É isso algo indesejável para alguém? Sim, sabemos que é, e isso diz muito de quem assim não-deseja, quem assim interdita ou tenta interditar o(s) desejo(s). E dominação é isso, impedir que a potência cresça. Faremos piadas com a dominação? Certamente!
Abraços a tod@s!

leonardo
devires wrote on Jul 26, '05
A questão da revolução então não é “como destruímos o capitalismo” mas “como paramos de criar o capitalismo”. Isto não resolve os problemas, mas nos dá uma forma diferente para pensar em mudar o mundo.
também estranhei a superficialidade do texto, embora pareça ser um texto bte incisivo, como na citação acima, que diz pouco, mas diz tudo. às vezes, a maneira em q se distribui o poder, nas malhas finas de nossa subjetividade, parece no texto ceder lugar a considerações que lembram a noção de alienação. Holloway é mais um desses escritores a la Marx mais além de Marx? Caso sim, a noção de alienação/liberação muda de nuance, transforma a questão da 'consciência' numa questão de 'desejo'. . . é assim q operaria Holloway?
desobediente wrote on Jul 27, '05
Não é o melhor texto realmente, mas circula e abre para diálogos mais potentes. .. Holloway teve um diálogo muito direto com Negri nos 70 e 80, mas afasta-se das elaborações recentes do Negri, chegando a dedicar um cápitulo em "Mudar o mundo sem tomar o poder" para marcar esse afastamento (penso que foi essa a razão de marxistas ortodoxos assumirem a edição do livro por aqui!). Há um passo complicado em Holloway que está em não abrir mão da dialética, e nesse ponto, então, não está tão próximo assim de "Marx mais além de Marx" (minha referência é o texto mesmo de Negri, as nove liçoes!). Ainda que acolha muito de Foucault, ao preservar o conceito de alienação e não abrir mão da dialética, faz um aproveitamento outro, criando pra nós alguns desafios. Os conceitos são ressignificados, mas estamos ao mesmo tempo muito próximos dos pós-operaístas (Negri, Virno, Lazzarato, Boutang, Cocco, Marazzi, etc.). Não aparecerão os mesmos termos, mas há convergências, e uma relação afetiva forte entre Holloway e Negri, ainda que o debate público não deixe isso em evidência. Tomo como derivas que experimentam desejáveis variações, e que devemos inventar formas criativas de uso, à lá D&G. Tenho uma boa quantidade de textos mais fortes, mais contundentes, mais clarificadores até, de John Holloway, e posso enviá-los por correio eletrônico, certo?! E ainda, na página da revista Herramienta, da Argentina [http://www.herramienta.com.ar/], é mantido um espaço dedicado a recolher o debate internacional sobre o livro de Holloway "Mudar o mundo sem tomar o poder". Sigamos...Forte abraço!

leonardo
lexbls wrote on Dec 28, '05
Sabem o que é mais engraçado?

Geralmente, os maiores entusiastas e simpatizantes dessas superficiais odes anticapitalistas são justamente pessoas que não saberiam JAMAIS viver sem as benesses que apenas esse sistema é capaz de lhes conceder: automóveis, ar condicionado, bons restaurantes, computadores, internet, viagens de avião, psicanalistas, empregadas domésticas e o escambau.

Provavelmente, muitas dessas pessoas que agora lêem esse meu pequeno texto, estão nesse exato instante, pela sua inata capacidade de sequer se permitirem refletir sobre opiniões contrárias às suas próprias, associando-me a alguma espécie de representante de "interesses imperialistas".

Certamente, vocês não valem nem meu esforço para continuar a escrever isso, porque, sinceramente, tenho coisas melhores a fazer na vida, que dar tapas na cara de gente entorpecida demais até para sentir dor de coice de mula.

Pronto, podem ir ao shopping agora.

Leandro




desobediente wrote on Dec 29, '05
Os homens tristes tentam entristecer a gente... Esto nisso de impedir a qualquer custo a potncia. A potncia incomoda-os, irrita-os, corroi. Mesmo quando no tm nada o que dizer, no se contm. H uma arrogncia-ignorncia indisfarvel: tomam que o que h criao do capitalismo, no conseguem compreender o que fazer, insensveis para ver @s fazedores, que resistem criando, incapazes de ver essa potncia humana que eles atribuem aos seus deuses fe(i)tiches: coisas humanas que os homens fazem, criao d@s fazedores e do fazer humano, que os tristes imaginam que os ultrapassam sempre: capital, instituies, Estado, corporaes. Mas para escrever, h que se ter o que escrever, h que ter potncia para pensar, h que se ser capaz de sustentar um pensamento, seno s sobra a mais gritante demonstrao de tristeza: "coice de mula", "tapas na cara", e todo o tipo de reao (sempre distinta da resistncia!) desumanizada e em nada digna, sempre destrutiva, impotente, no limite, querendo o extermnio de qualquer alteridade, apegados como so morte esses tristes. A violncia do poder (impotncia que reage potncia e resistncia das dignidades!): tentativa de impedir a potncia de se expandir, de crescer, de criar. Os homens tristes ainda esto por a, nessa tentativa de afirmao de fascismo por todas as partes. To mais violentos quanto mais percebem que a potncia incontrolvel e as resistncias cada vez mais criativas, mais cheias de vida. E que o poder-sobre cada vez mais inadequado e incapaz, impotente mesmo. Desespero o nome da reao, o que nutre os fascismos necrosentos....
Afirmar a vida, criar, comunicar, pensar e sustentar o pensamento, singularizar, produzir diferenciaes, diferenas, nisso que estamos... adelante! Sigamos! POTENTIA!!!!!! A alegria ingovernvel!!!! Incomensurvel mesmo! Uma gargalhada o que lanamos, de dignidade para dignidade, luta ecoando luta, resistncia se reconhecendo em cada resistncia, redes de redes de luta e resistncia...
woodyrs wrote on May 12
Esta mensagem é só pra manter contato, em breve eu poderei contribuir pra discussão. Bom trabalho Leonardo!, estou lendo outros textos e traduções tuas, parabéns. Um abraço Alex Corrêa "Woody"
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